UFC 149: luta também nos bastidores

aldo1A direção do UFC anunciou no ultimo sábado (09/04/2012) que o lutador brasileiro José Aldo está fora do combate contra Erik Koch, onde defenderia o cinturão dos pesos pena. Causa: reincidência de uma lesão no músculo posterior da perna esquerda, sofrida primeiro no início de maio/12, durante os treinos.

Por orientação médica, José Aldo deveria ter ficado um mês afastado dos treinos, o que não ocorreu, e deveria ter realizado apenas fisioterapia nestas quatro semanas. Dedé Pederneiras, técnico do brasileiro, disse ao UOL Esporte: “Por causa da proximidade do evento, que já estava acertado, ele não podia ficar tanto tempo sem treinar. Então, ficou duas semanas só na fisioterapia, na terceira começou um trabalho mais leve e, a partir da quarta, começamos a puxar um pouco mais”. Consequência: cinco semanas depois da lesão (considerada pelo médico de Grau 2) o atleta tornou a sentir desconforto no mesmo local. Um novo exame diagnosticou, desta vez, lesão de Grau 1. aldo2Parece que desta vez a equipe técnica do lutador vai seguir as recomendações a risca. A previsão para que Aldo esteja apto ao combate é de três a quatro meses, tempo que inclui a recuperação total da lesão muscular e a volta dos treinamentos intensivos visando ao combate contra Koch, que deve ocorrer em outubro.

Já publicamos diversas matérias aqui sobre como nossa Equipe aborda a reabilitação nas lesões musculares (clique aqui para ler), porém vale relembrar um ponto importante sobre fisiologia da lesão muscular.

Por mais que a fisioterapia esportiva procure acelerar a reparação de um músculo lesado, é imprescindível que a fisiologia SEJA RESPEITADA. É importante ter em mente o seguinte quando se posicionar diante de um caso como este:

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Em estudo publicado por Järvinen, ele apresenta de modo didático e de fácil compreensão as fases de reparação do músculo. Os números corresponde a dias passados após a ruptura. Assim, as fases sequentes são: necrose, inflamação, reparação, remodelagem e cicatrização (formação do tecido conjuntivo). Apesar de ser apresentado a cicatrização como completa em 3 semanas, sabemos que um músculo lesionado Grau 2 não se encontra apto a suportar alta intensidade e carga de treinamento ainda. Neste ponto foi onde pode ter falhado preparação de José Aldo. Por isto é prudente respeitar o período de reabilitação preconizado pela maioria dos fisioterapeutas de 6 semanas.

aldo3É comum (mas não deveria) a reincidência deste tipo de lesão. Com três semana de tratamento a maioria dos atletas já se encontra com amplitude de movimento completa, ausência de dor e força razoável. Porém um ponto importante e que não é fácil ser mensurado (nem ao menos existe um consenso) é avaliar o controle motor e a capacidade de ativação deste músculo reabilitado. Métodos como eletromiografia e isocinética não estão disponíveis facilmente. Assim, o bom senso manda segurar! Isso isto não apenas por medo, mas também porque muito se pode fazer nestas três semanas adicionais de tratamento, onde pode ser dada atenção específica ao reequilíbrio muscular, treinamento proprioceptivo e do gesto esportivo, condutas que não são prudentes adicionar a reabilitação durantes as fases de reparação acima mencionadas.

Neste ponto tratamos de outro problema corriqueiro no universo da Medicina Esportiva: palavra da equipe médica x interesse da equipe técnica e demais. Procuramos sempre trabalhar com a ciência e a literatura ao nosso lado afim de embasar nossas condutas e decisões. Porém, nem sempre isto é respeitado. Há muitos interesses envolvidos em uma luta como a de José Aldo, onde milhões de dólares estão em jogo: UFC, patrocinadores, público, televisão, interesse do próprio atleta, contratos futuros… Não podemos julgar como errada a atitude da equipe técnica, pois este é o trabalho deles, precisam estar ativos custe o que custar. Mas esta atitude teve consequências e, para nossa infelicidade, foi ruim. É preciso que técnica e medicina caminhem mais próximas no mundo do esporte. Buscamos os mesmos objetivos, então não há porque encarar um como empecilho ao trabalho do outro.aldo4

Por isto é de extrema importância um hábito pouco comum a maioria dos profissionais da saúde: registro em prontuário da conduta e dos atendimentos prestados, bem como das orientações fornecidas. Alguns minutos “perdidos” podem ser a salvação quando o fisioterapeuta for chamado a prestar esclarecimentos sobre uma reabilitação mal sucedida.

Força Aldo, logo logo vocês estará de volta ao octógono!

Ft. Fernando Cassiolato

Referências
UOL Esporte
Järvinen et al, Am J Sports Med May 2005 vol. 33 no. 5 745-764.

Fotos: Divulgação/UFC, Järvinen

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

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