Síndrome Miofascial no Esporte

A síndrome miofascial é um quadro estudado já há muitos anos, devido à sua íntima relação com reumatismos, fibrosites, fibromialgia e mialgias, em geral. No entanto, ela está sendo cada vez mais associada à atividade muscular intensa, mostrando grande prevalência no meio esportivo. Essa importante disfunção pode ser a causa de dores inespecíficas, de rigidez e de limitações da amplitude de movimento nos atletas.

A síndrome dolorosa miofascial é definida como uma disfunção neuromuscular regional que tem como característica a presença de regiões sensíveis em bandas musculares tensas e palpáveis que produzem dor referida em áreas distantes ou adjacentes.  Essa dor miofascial pode se originar em um único músculo ou pode envolver vários músculos, gerando padrões complexos e variáveis de dor.

A etiologia dessa disfunção pode estar relacionada com diversos fatores, como: traumas locais, alterações posturais, déficits nutricionais, tensão e fadiga muscular. No meio esportivo, a causa mais comum é a fadiga e a sobrecarga muscular, devido a repetição de movimentos e carga de treinamento.

Os sinais e sintomas da síndrome miofascial são: queixa de dor regional; queixa dolorosa ou alteração sensorial na distribuição de dor referida; banda muscular tensa palpável; restrição da amplitude de movimento; contração involuntária durante a palpação do ponto; dor à contração ou ao alongamento do músculo envolvido.

 A banda muscular tensa e palpável pode ser definida como ponto gatilho, um ponto irritável, localizado em uma estrutura de tecido mole, mais freqüentemente no músculo, caracterizado por baixa resistência muscular e pela alta sensibilidade em relação a outras áreas.  Quando se estimula esse ponto por alguns segundos com uma pressão moderada, surge uma dor referida. 

A fisiopatologia dos pontos gatilho baseia-se no esquema que postula um ciclo vicioso de eventos: a bomba ativa de íons da fibra muscular sofre uma disfunção que resulta na liberação excessiva de cálcio. Esse cálcio produz a contratura máxima de um segmento do músculo, gerando demanda de energia máxima e impedindo a circulação local. A isquemia interrompe o suprimento de energia e causa o fracasso da bomba de íons, completando o ciclo. A contratura desse segmento muscular aumenta a excitabilidade na placa motora, o que produz uma despolarização sustentada da membrana da fibra muscular, perpetuando o ciclo de espasmo.

Um ponto gatilho é dito ativo quando é um foco de irritabilidade sintomática com padrão de dor referida (dor espontânea a contração ou alongamento do músculo).  O ponto gatilho latente não causa dor, mas pode ocasionar rigidez e diminuição na amplitude de movimento, podendo tornar-se ativo por qualquer evento (trauma, estresse), gerando a dor referida característica do ponto gatilho ativo. Há ainda o ponto gatilho satélite, formado geralmente por compensações musculares e pelo ciclo de dor-espasmo que envolve os músculos adjacentes. O ponto gatilho satélite pode-se encontrar em outros músculos, que não o mesmo do ponto gatilho ativo primário. É importante lembrar, nesses casos, que o tratamento deve ser iniciado sempre pelo ponto gatilho ativo, pois uma vez inativado, pode-se perceber remissão dos sintomas dos demais pontos.

O tratamento da disfunção miofascial compreende diversas medidas:

– Liberação miofascial do ponto gatilho: pode ser realizada de diversas maneiras, através da massagem transversa profunda (Cyriax), liberação por pressão, digitopressão associada a alongamento, stretching (técnica de inibição muscular), criomassagem, terapia combinada (eletroterapia associada a ultrassom contínuo, simultaneamente), dry needling (técnica de agulhamento) e técnicas de energia muscular (contração isométrica submáxima seguida do relaxamento muscular);

– Hidratação: a reposição de líquidos no organismo é essencial para que se mantenham as condições de perfusão e recuperação muscular. Quando se trata de atletas, a reposição de líquidos deve ser feita cuidadosamente durante e após os treinos;

– Alimentação: a reposição nutricional é extremamente importante para manter o sistema de reposição da bomba ativa de íons da célula muscular. Os nutrientes mais importantes para o bom funcionamento da célula muscular são sódio, potássio e magnésio. A depleção no nível de algum deles pode estar intimamente associada a ocorrência e/ou persistência de pontos-gatilho e cãibras musculares. Por esse fator, é indispensável para o atleta uma dieta especial de reposição nutricional;

– Recuperação: o repouso é fundamental na recuperação muscular do atleta. Quando se trata de repouso, é importante dar atenção tanto ao intervalo entre os treinos, quanto as horas de sono.

Dentro do atual âmbito esportivo, a síndrome miofascial envolve principalmente corredores, que desenvolvem pontos gatilho nos músculos respiratórios e nos músculos do quadril, devido a sua demanda de treinamento. Outros atletas que comumente desenvolvem a síndrome miofascial são os praticantes de esporte de arremesso, envolvendo principalmente pontos gatilho de trapézio superior, elevador da escápula, supraespinhoso e rombóides. No tratamento de atletas, é importante detectar o fator perpetuante da disfunção miofascial e corrigi-lo de modo a interferir da menor maneira possível em sua performance, uma vez que há diversos fatores que vão além do treinamento.

Ft. Thaís Bortolini Bueno

Bibliografia: Miofascial Pain and Dysfunction: the trigger point manual. Vol. 1 e 2. Simons, D. G; Travell, J. G.; Simons, L. S. 2a ed, 1999.

Sobre o autor spallafisioterapia

Spalla Fisioterapia escreveu 78 matérias nesse site.

A SPALLA Fisioterapia é uma equipe com enfoque na área de ortopedia e traumatologia. Nosso objetivo é ser um ponto de referência em reabilitação. Queremos conduzir com precisão nossa missão de promotores de saúde e proporcionar o retorno de nossos pacientes a sua prática esportiva ou ao seu dia a dia no melhor equilíbrio possível.

Queremos seu comentário...