São Silvestre e a mudança de percurso

O novo percurso da São Silvestre 2011, prova de corrida de rua mais tradicional do país está em sua 87° edição, foi divulgado na ultima sexta-feira (04/12/2011). Em setembro deste ano a organização já havia alterado o trajeto, com a chegada da corrida na praça Túlio Fontoura, em frente ao Obelisco. Segundo os organizadores, essa alteração foi feita para evitar a aglomeração dos atletas com as pessoas que vão à avenida Paulista participar da festa de Réveillon. Para ver o novo percurso com mais detalhes clique aqui.

Não é a primeira vez que a prova tem o seu percurso alterado e quando isso acontece há quem aprove ou não. Na história da corrida, talvez a mudança mais significativa tenha sido a alteração de horário: até 1988 a corrida era realizada à noite, com a largada às 23h30, depois passou a ser realizada durante o dia. Esta mudança exigiu uma alterações na preparação física dos atletas de elite, principalmente no que diz respeito a resistência muscular e hidratação, pois com sol e calor mais intenso há um risco de se atingir o ponto de fadiga muscular precocemente, diminuindo o rendimento e elevando a probabilidade de lesões consideravelmente durante a prova. Outra característica marcante da prova de São Silvestre é a inclinação das ruas que compõem o percurso, sendo assim vamos analisar os trajetos:

No PERCURSO ANTIGO destacamos dois pontos críticos durante a prova. A descida da Rua da Consolação, logo no início da prova, com quase 2km de extensão, exige controle neuromuscular excêntrico dos atletas. Apesar do declive não ser muito acentuado, sua extensão é o grande problema e pode levar a fadiga de quem o faz sem a cadência devida ou pode provocar lesões nos joelhos, fazendo o atleta abandonar por dor. Ao final da prova surge a temida subida da Av. Brigadeiro Luís Antônio, com seus 2,5km de extensão. Neste trecho a eficiência metabólica aeróbica muscular é posta à prova, assim, aqueles que apresentam qualquer sinal de fadiga ou despreparo de musculatura glútea e quadríceps provavelmente não suportam e abandonam.

No PERCURSO NOVO temos três trechos críticos e um agravante, predispondo a lesões. A descida longa e não acentuada da Rua da Consolação foi substituída pelas ruas que ligam o trecho entre a Av. Dr. Arnaldo e a Av. Pacaembú. Essas ruas misturam declives e aclives curtos e acentuados, exigindo dos atletas diferentes esforço e trabalho muscular (controle excêntrico, atividade metabólica aeróbia e anaeróbia). O segundo crítico se repete, sendo a já comentada subida da Av. Brigadeiro Luís Antônio. O terceiro trecho crítico está no final da prova com a descida longa e íngreme, em quase toda sua extensão, da Rua Manoel da Nóbrega, terminando próximo do Parque do Ibirapuera.

AGRAVANTE DO NOVO PERCURSO: a fadiga muscular e o desequilíbrio metabólico prejudica muito a ativação correta e sincronizada das fibras musculares. Sendo assim, quem não atingir o final da subida da Av. Brigadeiro Luís Antônio em condições favoráveis corre um risco grande de sofrer alguma lesão no trajeto de descida rumo ao final da prova.

O grande perigo de entrar no trecho de descida apresentando fadiga muscular é o risco de lesões musculares e de torções nas articulações do joelho e tornozelo. A falta de ativação muscular compromete a estabilidade do membro, predispondo a tais lesões. Ainda, quando o atleta enfrenta um trecho em declive seu corpo mantém certos graus de extensão de tronco, flexão de quadril e flexão plantar. Esta postura altera a biomecânica do membro fazendo com que a maior parte da carga de trabalho recai sobre o quadríceps, especialmente sobre seu tendão comum. Este grupo é o responsável por frear o ganho de velocidade imposta pela gravidade, trabalhando de modo excêntrico em todo o trajeto. Pessoas com histórico de tendinopatia patelar podem sofrer muito nestes trechos e re-agudizar uma lesão crônica. Confira o que já publicamos sobre tendinopatia patelar.

Portanto, para correr bem e com segurança a prova de São Silvestre, é necessário que o atleta possua resistência e um bom controle neuromuscular!

Ft. Fernando Cassiolato

Fotos: Gazeta PressEditoria de Arte/Folhapress

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

One Reply to “São Silvestre e a mudança de percurso”

  1. Grande Fernando, tudo bem?
    Apesar de não ter corrido no percurso antigo, posso concordar com o que está escrito.
    No novo percurso existem esses 3 pontos críticos e no meu entender, os piores são os de declive, principalmente o do final da prova, onde estamos muito cansados e aumenta o risco de lesão.
    Foi um grande prazer participar da principal corrida brasileira, mas é necessário um bom preparo para encarar esse desafio.
    Atenção as pessoas que desejam participar da São Silvestre, se preparam bem antes de entrar nessa aventura, caso contrario pode trazer sérios danos a sua saúde.

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