Ruptura do Ligamento Cruzado Anterior – Natália Falavigna

Natália Falavigna, atleta de Taekwondo e medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008), rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito durante um treino para o Aberto dos Estados Unidos no mês passado. Falavigna sentiu um desconforto no joelho e voltou ao Brasil para realizar exames. Foi detectada a lesão parcial do ligamento e realizada a cirurgia. A atleta já sofreu essa mesma lesão no ano passado, o que a afastou das competições por oito meses. Dessa vez, a equipe técnica de Natália acredita que a atleta estará de volta aos treinos e competições antes dos seis meses de reabilitação para participar da seletiva continental em Guadalajara, a qual poderá lhe dar uma vaga nas Olimpíadas de Londres em 2012.

A lesão do ligamento cruzado anterior pode ocorrer sem que haja um contato direto (lesão traumática) com outro atleta. Nesses casos a lesão pode acontecer quando o atleta realiza um movimento de rotação do joelho com o pé fixo no chão, ao realizar mudanças súbitas de direção ou durante um movimento de desaceleração, movimentos esses que podem ser encontrados em esportes como o futebol, lutas, basquete e outros. No caso de Falavigna, o mais provável é que a ruptura tenha ocorrido durante um movimento rotacional do joelho com o pé fixo no chão, já que o Taekwondo é uma modalidade que exige chutes altos com o joelho da perna de apoio realizando um movimento de flexão e rotação, além de movimentos de saltos com giro onde o atleta aterrisa com apenas uma perna e o joelho realiza um movimento de flexão, rotação e desaceleração.

A cirurgia para reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) só deve ser realizada uma vez que o atleta apresentar mobilidade ativa livre de 0° a 90° de flexão do joelho, ausência ou pouco edema e mínima dor, porém deve ser feita o quanto antes para evitar que após a lesão o atleta desenvolva lesões meniscais e degeneração da cartilagem articular.

O mais comum é fazer a retirada dos tendões dos músculos grácil e semitendinoso para usar como enxerto, porém, alguns médicos optam por fazer a retirada do tendão patelar, pois a fase de cicatrização é mais rápida. Um estudo realizado em 2006 mostrou não haver diferença nos testes clínicos, feitos após cinco anos de cirurgia, em pacientes com enxerto de tendão patelar e em pacientes com enxerto de tendão do grácil e semitendinoso. Foi observado apenas que pacientes com enxerto de tendão patelar apresentaram maior prevalência de osteoartrose.

 

REABILITAÇÃO

Logo após a cirurgia, ainda no hospital, o paciente deve conseguir fletir seu joelho até 90° para então receber alta. A Fisioterapia deve ser iniciada logo nos primeiros momentos de pós operatório no próprio ambiente hospitalar (Protocolo Price). Os exercícios de mobilidade devem ser iniciados imediatamente, concentrando-se principalmente na extensão passiva do joelho para ajudar a prevenir a formação de fibrose intra articular, o que pode comprometer o sucesso da cirurgia. Além disso, a extensão completa do joelho permite maior facilidade no recrutamento do quadríceps, importante músculo para estabilização do joelho. É importante realizar um trabalho de recrutamento da musculatura de quadríceps com eletroestimulação (Correntes Russa ou FES) com contrações isométricas associadas. Mobilizar a patela e as cicatrizes também é importante para facilitar o ganho de flexão do joelho (até a 4ª semana o paciente deve apresentar em torno de 130° de flexão). Exercícios isométricos da musculatura de quadril devem ser iniciados, assim como exercícios de extensão e flexão de tornozelo para ajudar a drenar o edema articular presente nessa fase.

A partir do 3° mês de pós operatório o paciente deve estar com amplitude de movimento completa tanto para flexão como para extensão. Os exercícios de fortalecimento para quadríceps em cadeia cinética aberta são iniciados e os métodos para manter e melhorar o condicionamento físico são realizados na bicicleta com cargas maiores e na esteira com o inicio do trote. Os exercícios proprioceptivos evoluem com saltos e deslocamentos laterais até se tornarem, no 4° mês, mais específicos para cada esporte. Nessa fase o paciente já está liberado para realizar o treino de fortalecimento em academia e inicia um treino proprioceptivo mais intenso na fisioterapia (com giros, mudanças súbitas de direção, saltos unipodais, etc). Do 5° ao 6° mês são iniciados os exercícios pliométricos e o treino do gesto esportivo, para que o atleta retorne gradativamente ao seu esporte. A reabilitação total de reconstrução do ligamento cruzado anterior leva normalmente de 6 a 8 meses. Não se deve ficar preso ao tempo proposto em protocolos, pois cada atleta evolui de forma diferente.

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos


Referências:
Heijne, A. Knee Surg Sports Traumatol Arthroscopic. 15:402–414, 2007
Sajovic, M. The American Journal of Sports Medicine. Vol. 34, No. 12, 2006
Cohen, M. Abdalla, R. Lesões nos Esportes – Diagnóstico, Prevenção e Tratamento
Andrews, J.Harrelson,G. Reabilitação Física das Lesões Desportivas. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000
http://www.antoniocgomes.com/cms/pdf/14092010113300.pdf

Fotos: Reuters, HealthpagesUniversity of DelawareIspub

Sobre o autor Ana Carolina Villa-Lobos

Ana Carolina Villa-Lobos escreveu 12 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pelo UniCeub em Brasília, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Supervisora do ambulatório de coluna do CETE. Trabalha com Fisioterapia Esportiva, Terapia Manual e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

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