Principais Lesões na Escalada

A primeira escalada sobre rochas ocorreu no ano de 1492 pelo francês Antoine de Ville em um dos picos da Cordilheira dos Alpes, porém novas escaladas só ocorreram séculos depois e todas de caráter exploratório e científico.

As escaladas de caráter esportivo só tiveram início no final dos anos 20 e Segunda Guerra Mundial. A partir daí o montanhismo começou a difundir-se em vários países e hoje é praticado em áreas fechadas (indoor) e abertas (outdoor) por pessoas de todas as idades.

Existem hoje modalidades diferentes dentro desse esporte. A esacalada livre, por exemplo, implica em escalar rochas sem ajuda de equipamentos, ou seja, fazendo uso somente das agarras naturais das rochas. O único equipamento permitido nessa modalidade é para proteção contra quedas do atleta/praticante. Já na escalada esportiva, o praticante preocupa-se mais com seu desempenho físico já que é uma modalidade mais segura. O atleta se preocupa com a maneira e grau de dificuldade que irá realizar os movimentos da escalada e não com as consequencias de possíveis quedas ao longo de sua prática, pois o material de segurança é bem maior e de melhor qualidade. Existem também as modalidades de escalada esportiva de competição, escaladas esportivas em estruturas artificiais, Boulder e Big Wall. Na escalada em estruturas artificiais, o atleta usa muros com agarras artificiais para escalar. Essa modalidade é muito usada para treinamento de escaladores outdoor, mas hoje em dia também existem os praticantes que só gostam de escalar muros e raramente escalam rochas. É uma modalidade de fácil acesso (hoje em dia existem ginásios de escalada esportiva artificial) e baixo custo dos equipamentos. A única diferença entre a escalada esportiva artificial e o boulder é que este última não faz uso de cordas para ajudar na escalada. É uma modalidade que exige força bruta e muita explosão muscular.

Na escalada, o atleta faz uso de todo o corpo e exige muita força principalmente de membros superiores (dedos, punho, ombros), pés e tronco. Nesse esporte existem vários tipos diferentes de pegadas (pegadas de membros superiores e inferiores) e elas podem levar a diferentes tipos de lesões. A pegada fechada, por exemplo, é uma das mais comuns nesse meio. Aqui o atleta segura na agarra com as ponta dos dedos quase encostadas na palma da mão. A pegada  aberta, pinça, monodedo,bidedo, tridedo e invertida também são técnicas usadas para agarrar as estruturas que permitem escalar muros e rochas.    O uso dos pés também é muito importante na escalada. Existem técnicas diferentes de posicionamento, como o interno, que é o mais usado na escalada, onde o apoio é realizado na parte interna do pé e hálux, externo, bico, foot hook, etc.                                                                                                                  

                                                                                                                                                                                                                                                            

  A escalada desenvolve uma atividade muscular em esforço extremo e  movimentos coordenados. Para realizar essa atividade é importante ter muita resistência muscular, pois muitas vezes o atleta deve se manter em uma mesma posição por um “longo” período de tempo até conseguir se posicionar corretamente e encontrar outra agarra para se fixar. Além disso, o escalador deve ter muita força muscular, principalmente em mãos e pernas, para realizar as subidas oferecidas nesse esporte. Com a evolução do esporte, o profissionalismo dos atletas e maior número de competições de alto nível de dificuldade, as solicitações do corpo durante o treinamento atingiram o limite físico do praticante, produzindo um grupo de lesões específicas associadas ao gesto desportivo do escalador. As lesões associadas à prática da escalada, são mais freqüentes nos MMSS, predominando em mãos, ombros e cotovelos, sendo pouco evidenciadas nos MMII. Estudos mostram que 60% de todas as lesões observadas em escaladores ocorrem em dedos e punhos e 40% em ombros e cotovelos. Essas lesões normalmente estão associadas a sobrecarga das estruturas músculo-esqueléticas, pois os MMSS nesse esporte fazem o papel de sustentação e deslocamento do corpo durante a prática esportiva e por isso, a exigência muscular é maior nessa região.

 As lesões são causadas pelo esforço mecânico e vascular imposto as estruturas, ocorrendo microrupturas nos tecidos antes de se tornarem sintomáticas, muitas vezes ocasionadas nos dedos por fricção, abrasão, etc. As cargas contínuas podem agravar o dano microscópio e formar uma tendinose, ou seja, apresentando alterações degenerativas do tecido sobrecarregado.

Nas mãos, a  sobrecarga  somada a um movimento realizado num padrão não fisiológico traumatiza o sistema cápsulo-ligamentar e tendíneo, provocando aumento da pressão intrarticular, aumento do atrito entre essas estrutiras e consequentemente desgaste articular, atingindo principalmente a Articulação Interfalangeana Proximal (AIFP). É muito comum observar nas mão dos praticantes de escalada  hipertrofia dos ligamentos colaterais dos dedos e edema articular crônica por sinovites recorrentes. Uma das lesões mais comuns nesse esporte é a ruptura parcial ou completa da polia digital A2. Essa ruptura pode gerar uma sobrecarga na inserção do tendão Flexor Superficial do dedo, pois a força de tração do tendão sobre o osso não é distribuída efetivamente no túnel osteofibroso, o que faz com que esta força se direcione diretamente para a inserção deste tendão. Nesses casos, o atleta irá apresentar uma dor na falange média do dedo acometido. Além da tendinose, o praticante pode sofrer ruptura do tendão Flexor Superficial do dedo, levando a uma incapacidade em fletir a falange média, ou uma ruptura do tendão Flexor Profundo dos dedos, levando a uma incapacidade em fletir a falange distal do dedo. Outra lesão muito comum nesse esporte é a tendinopatia dos flexores dos dedos. Aqui, o atleta pode sentir dores similares a uma Sindrome do Túnel do Carpo, com perda de força dos dedos e parestesia similar a de uma compressão do nervo mediano.

Nos ombros e cotovelos, a sobrecarga também é o principal motivo de lesões. A tendinopatia do músculo braquial é muito comum entre os escaladores, sendo conhecida como “Cotovelo do Escalador”. Essa lesão ocorre por uma sobrecarga desse músculo quando existe uma insuficiência do bíceps em manter o membro superior em flexão do cotovelo e pronação do antebraço. Além dessa lesão, o escalador pode apresentar lesões dos ligamentos colaterais mediais do cotovelo (pelo excesso de valgismo durante certas técnicas) e rupturas de fibras dos músculos superficiais dos dedos e punho e do músculo pronador redondo.

Pelo ombro ser uma articulação de grande mobilidade, este se torna suscetível a lesões se o atleta apresentar uma instabilidade gleno-umeral e/ou escápulo-torácica. O posicionamento do braço do escalador durante sua prática esportiva pode favorecer a aparição de uma síndrome do impacto com possíveis tendinopatias e rupturas dos tendões do Manguito Rotador, principalmente se o atleta apresentar um déficit de ativação da musculatura periescapular (trapézio médio e inferior, romboídes, peitoral menor, serrátil anterior,etc).  A tendinopatia da cabeça longa do bíceps e lesões de SLAP também são comuns nesse meio esportivo.

Nos MMII, as lesões de menisco e rupturas do ligamento cruzado anterior são as mais comuns, pois o escalador se mantêm em posição de  hiperflexão do joelho, rotação externa da tíbia, e rotação interna do fêmur, o que leva a uma compressão do corno posterior do menisco medial.  As lesões nos pés são pouco freqüentes. A neuropraxia dos ramos do Nervo Fibular Supreficial ocorre quando existe a compressão deste pela sapatilha de escalada, pois esta é muito justa ao pé. 

Fraturas de costelas, vértebras e pelve são comuns quando o atleta sofre uma queda, principalmente em escaladas livres. As fraturas de úmero e escafóide também são bastante comuns durante as quedas.

É importante que o atleta de escalada faça um bom trabalho muscular, principalmente ´da musculatura de membros superiores, tais como os músculos flexores dos dedos e punho, músculos do manguito rotador e periescapulares. É necessário tomar cuidado com o número de repetições excessivo durante o trabalho muscular para que o atleta não sofra uma tendinopatia por sobrecarga e excesso de treinamento. Vale a pena ressaltar a importância de se trabalhar a fase excêntrica da musculatura de MMSS, principalmente dos dedos e punho (sistema de polia da mão), pois assim o escalador pode evitar lesões musculares dos principais músculos utilizados durante esse esporte. Um trabalho dos músculos do CORE também é essencial para o praticante de escalada, pois com um bom recrutamento dessa musculatura a sobrecarga em MMSS é melhor controlada, evitando lesões por overuse.

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

 

Referências:

Friction between finger flexor tendons and the pulley system in the crimp grip position.

LUMBRICAL TEARS IN ROCK CLIMBERS

The influence of concentric and eccentric loading on the finger pulley system

A2 and A4 Flexor Pulley Biomechanical Analysis: Comparison among Gender and Digit

 

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4 Replies to “Principais Lesões na Escalada”

  1. oi boa noite meu marido fez debridagem no pe e enxerto porem desde d abril o inchaço nao para gostaria muito q alguem me ajudasse queria muto q Deus desse a suade dele…o q pode ser sera q esse inchaço vai parar..obg

    1. Ola Gracy, após realizar a debridagem da pele a circulação capilar local fica prejudica, com isso pode ocorrer o estravazamento de líquidos. É preciso manter a região do enxerto sempre limpa e se este estiver sadio e fixo, converse com o médico responsável se há possibilidade de usar alguma material de compressão externa (meia elástica, por exemplo). Quando estiver em repouso, prefira a posição com o pé elevado, isso limita a formação de edema. Não deixe de consultar o médico antes de tomar qualquer atitude, caso contrário poderá prejudicar o enxerto.

  2. Faz 90 dias que fiz a cirurgia do Tendão de Aquiles.Necrosaram os pontos . Aí fizeram debridagem e a cirurgia abriu total. Está sendo cicatrização de segunda intenção.Estou fazendo curativos quase que diariamente,Uso alginato com soro fisiológico,mais gase cirúrgica com Dersani. sinto dor e o médico diz que é assim mesmo que não está inflamado,e que a demora é porque sou Diabético.Já estou em Depressão pela demora,em resumo estou desesperado.É assim mesmo ,demora a cicatrizar,o que mais posso fazer. Edison teixeira ,tenho 69 anos,isso também influi.

    1. Olá Edison,

      Obrigado por seu comentário. O fato de você ser diabético dificulta e atrasa o processo de cicatrização, por isso essa demora em fechar os pontos. É importante ver se suas taxas estão controladas. Continue fazendo o curativo diariamente para evitar alguma possível infecção, mas tenha paciência, pois o processo é lento e delicado no seu caso. Converse com o seu médico para que ele te indique algum medicamento para dor, mas não se preocupe.

      Saudações,

      Equipe Spalla Fisioterapia.

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