Ombro – Mobilidade com estabilidade

estabilidade ombroNo estudo da anatomia há dois conceitos que aparentemente se chocam: estabilidade e mobilidade. Se formos estudar cada articulação do corpo humano veremos que as articulações mais estáveis não são as que permitem maior liberdade de movimentos. Tomando a articulação do quadril como exemplo disto, veremos que ela é do tipo esferoide, onde a cabeça do fêmur se encontra encaixada dentro da fossa acetabular, envolto ainda por uma capsula articular fibrosa. Bastaria esta conformação já para garantir a estabilidade imensa que o quadril apresenta, mas ainda temos os ligamentos (regiões em que a cápsula articular se espessa) e os músculos. Apesar dos três graus de liberdade de movimento que o quadril apresenta (flexão/extensão, abdução/adução e rotação medial/lateral) a amplitude de movimento não chega perto do que o complexo articular do ombro possibilita. Isto é importantíssimo na realidade, pois cada articulação tem seu papel fundamental na biomecânica corporal: o quadril precisa ser estável pois deve sustentar o corpo ereto estático e dinamicamente; o ombro precisa fornecer liberdade para o trabalho das mãos ao redor do espaço corporal.

estabilidade ombroSe a conformação anatômica da articulação glenoumeral fosse semelhante ao quadril, teríamos choque ósseo, com limitação de movimento. Se a capsula articular fosse tensa e rígida, com ligamentos espessos, os movimentos seriam restritos ao se chegar no limite elástico destes tecidos. Deste modo, já podemos começar a entender as dificuldade encontradas pelo complexo articular do ombro: como garantir mobilidade e estabilidade? A resposta para esta questão é brilhante: articulações funcionais e anatômicas, estabilizadas por estruturas dinâmicas.

O ombro pode ser descrito como formado por cinco articulações: glenoumeral, acrômioclavicular e esternoclavicular (articulações anatômicas); escapulotorácica e subacromial (funcionais). Sobre estas articulações as características marcantes de plana para a glenoumeral e o deslizamento e inclinação da articulação escapulotorácica, são os grande responsáveis por permitir os movimento amplos e que em conjunto chamamos de circundução do membro superior. Também, tais movimentos articulares só são possíveis pois há apenas um ponto onde todo o membro superior está  conectado ao esqueleto axial: articulação esternoclavicular. Pode-se pensar que todo o peso do membro superior é demais para uma simples e pequena articulação como a esternoclavicular, pois é neste ponto que entrar os estabilizadores dinâmicos do complexo articular do ombro.

serrátil anteriorserrátil anteriorO músculo serrátil anterior é grande responsável por manter a escápula em seu lugar correto, em contato com o gradil costal, além de auxiliar na sua rotação. Com origem nos arcos costais, insere-se na borda medial da escápula, garantindo sua estabilidade. Qualquer disfunção de ativação ou fraqueza deste músculo pode levar aos graus variados de escápulas aladas, muito comum em crianças ou pacientes com dores crônicas, e por alterar a estabilidade e posicionamento pode predispor a impacto articular glenoumeral e limitação de movimento. O Boxe é um esporte que depende muito de uma boa estabilização e força deste músculo para a transferência de força do tronco ao membro superior e gerar um golpe potente.

manguito rotadormanguito rotadorOs músculos subescapular, supra e infraespinhal e redondo menor, além de terem suas funções específicas na movimentação do ombro, emergem a partir da escápula e se inserem na cabeça do úmero, formando um manguito na articulação do ombro. Sua função é manter segura a cabeça do úmero que apenas repousa sobre a rasa fossa glenóide da escápula. Ao se observar a conformação da inserção destes músculos veremos que eles, atuando em conjunto, realizam a tração necessária em qualquer direção para manter sempre a articulação glenoumeral estável, numa sincronia perfeita de ativação seletiva, possibilitando que os demais músculos possam gerar sua força máxima sem risco de deslocamento articular. Por exemplo: durante abdução do braço, o manguito rotador comprime a cabeça umeral sobre a glenóide de modo que o músculo deltóide possa elevar o braço Neste movimento o musculo supraespinhal atua parte da amplitude de movimento (graus iniciais) como agonista do movimento e também como estabilizador. Sem o manguito rotador, a cabeça do úmero iria perder seu contato com a glenóide, diminuindo a eficiência dos músculos. A lista de esportes em que o manguito rotador tem trabalho duro é extensa: handebol, ginástica, artes marciais, alpinismo, canoagem, natação, parkour… Ou seja, onde há demanda articular do ombro, lá estará o manguito rotador sendo solicitado.

estabilidade ombroCompreendida a importância dos estabilizadores dinâmicos do ombro e o seu trabalho meticuloso, não é difícil imaginar que se algum destes componentes falhar no tempo de ativação, todo o complexo poderá ser exposto a sobrecarga ou lesão. Qualquer processo doloroso altera a capacidade de ativação muscular e a capacidade de geração de força, bem como presença de edema articular ou inflamação corrente. Uma vez essa dinâmica alterada, lesões no complexo do ombro, como impacto glenoumeral, lesão SLAP, tendinopatias do supraespinhal, cabeça longa do bíceps, entre outras, podem surgir. Por isso é muito importante que o fisioterapeuta dê grande atenção a dinâmica dos movimentos do ombro ao realizar uma avaliação em que o paciente se queixe de dores nessa articulação ou até mesmo em articulações adjacentes. O profissional deve observar se há ativação correta dos músculos estabilizadores do ombro durante todos os seus graus de movimento, se existe uma discinesia escapular e o quanto isso pode estar influenciando na sintomatologia.

Ft. Fernando Cassiolato
Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

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