Ombro do Nadador

A queixa de dor nos ombros é frequente em diversas modalidades esportivas, tais como voleibol, handebol, judô e ginástica olímpica, porém na natação a incidência de queixas dolorosas, que diminuem o rendimento esportivo ou determinam o afastamento do atleta, parece ter maior prevalência do que em outros esportes.

Estudos mostram que cerca de 5% a 80% das pessoas que praticam natação já apresentaram dor no ombro. E quando analisados somente os atletas de elite este número chega a mais de 90%.

A dor nos ombros freqüente em nadadores é chamada de “ombro do nadador”, uma condição causada por sobrecarga que resulta em lesões do manguito rotador (principalmente no tendão do supraespinhoso) e/ou bíceps ou bursite subacromial. O impacto causado nessas regiões é alto e causa sobrecarga e microtraumas na articulação dos nadadores, podendo assim resultar em uma instabilidade no ombro (falência progressiva dos ligamentos e cápsula articular). Muitas teorias são usadas para explicar a dor no ombro do nadador, tais como tendinopatias avasculares do supra, do bíceps, síndrome do impacto, lesões labrais, instabilidades secundárias a frouxidão ligamentar ou secundárias a disfunções musculares, porém acredita-se que a maioria dessas dores está relacionada à instabilidade decorrente do gesto esportivo da natação e das exigências do esporte para melhora da performance do atleta.

                                                

Muitos são os fatores que favorecem a lesão no ombro dos nadadores. Como principais podemos citar a frouxidão articular, o número de repetições das braçadas, o aumento da amplitude de movimento, a fadiga muscular e os erros na técnica e no treinamento (volume e intensidade inadequados).

A frouxidão articular é uma característica do nadador. Os atletas apresentam boa flexibilidade, fator importante para uma natação eficiente, porém esta flexibilidade pode se tornar prejudicial quando é excessiva, sendo chamada então de instabilidade. Estudos sugerem que o aumento da flexibilidade possibilita ao nadador alcançar uma maior amplitude de movimento durante as braçadas, gerando uma maior força durante a puxada na água e melhorando então seu desempenho esportivo. Infelizmente com o aumento dessa flexibilidade ocorre um aumento na instabilidade do ombro, fazendo com que a cabeça do úmero se torne instável em relação à glenoide. A estabilização escapular realizada pelo elevador da escápula, rombóides, trapézio inferior e médio, peitorais, serrátil anterior e grande dorsal e a estabilização umeral realizada pelos músculos do manguito rotador (redondo menor, supraespinhoso, infraespinhoso, subescapular e cabeça longa do bíceps braquial) são muito importantes para manter uma boa relação entre a cabeça do úmero e a glenóide. Estudos mostram que a disfunção escapular é comum em nadadores e que está relacionada a dor no ombro desses atletas.

O atleta que apresenta frouxidão articular como característica constitucional deve estar atento. Seu ombro pode tornar-se instável devido aos treinos de alongamentos realizados de forma incorreta e a falta de condicionamento da musculatura específica do ombro.

Outro fator que predispõe o ombro a lesões é a repetição das braçadas e a fadiga muscular. Estima-se que o nadador que treine por volta de 10.000 metros por dia, 6 vezes por semana, durante 10 meses no ano, execute aproximadamente 4 milhões de braçadas. Isto gera uma sobrecarga no ombro, já que 90% da propulsão na natação é realizada pelos braços, com exceção do nado peito onde a pernada assume grande parcela na propulsão.

Já a fadiga muscular faz com que os movimentos do ombro não sejam realizados de forma coordenada. Os atletas de natação realizam treinos intensos para aumentar a resistência muscular, porém durante esses treinos ocorre fadiga da musculatura periescapular e de manguito rotador e alteração do posicionamento da escápula durante o movimento de braçada, sobrecarregando os tendões e favorecendo a lesão destas estruturas.

 O aumento da amplitude de movimento para melhora do desempenho do atleta também pode resultar em lesões e dor na articulação do ombro. Ombros com aumento de sua amplitude permitem que o braço e o corpo alcancem um ângulo de 180º em relação à superfície da água, o que favorece uma melhor braçada e uma diminuição no tempo do atleta, porém sofrem desequilíbrios musculares e aumento da instabilidade articular.

 A técnica da braçada quando executada de maneira errada também sobrecarrega os ligamentos e tendões do ombro. Cuidados com o posicionamento dos cotovelos, posição de entrada da mão na água e inclinação do tronco devem ser observados. Estudos demonstram que o excesso de rotação externa e abdução do ombro, no início da fase de recuperação da braçada, seja uma das principais causas de impacto no ombro do nadador e que sua correção seja benéfica para o atleta. Técnicas novas realizadas nos nadadores procuram evitar este impacto para que sejam minimizados os seus efeitos, tais como manter o cotovelo em um plano mais alto na fase de recuperação do movimento, deixando a mão na altura da crista ilíaca. Cabe aos técnicos do atleta a correção destas falhas, prevenindo as lesões e melhorando o desempenho de seus atletas.

O atleta lesionado geralmente é tratado de maneira conservadora. Manter o atleta na água é muito importante, mas requer uma diminuição da metragem nadada e da intensidade do exercício. Medidas terapêuticas como fisioterapia (alongamento e exercícios específicos) e medicação possibilitam o retorno ao nível competitivo, porém a prevenção é a melhor forma de se abordar o “ombro do nadador”. Este enfoque é multidisciplinar, e envolve o técnico, preparador físico, nutricionista, médico e fisioterapeuta. Os cuidados com a flexibilidade,  com a técnica da braçada e treinamento, além do trabalho de fortalecimento da musculatura escapular e de manguito rotador, podem prevenir as lesões fazendo com que o atleta aumente seu rendimento e sua carreira dentro da natação.

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

Referências:
Zemek MJ, Magee DJ. Clin J Sport Med 6: 40-47, 1996.
Edward JW, Richardson MD. Clin Sports Med 20, 2001.
Bak K, Magnusson SP. Am J Sports Med 25: 454-459, 1997.
Centro de Traumatologia do Esporte – UNIFESP

Sobre o autor spallafisioterapia

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