O que aconteceu com Rogério Ceni?

        Em janeiro deste ano, o goleiro e ídolo de muitos, Rogério Ceni teve que tomar a decisão de se afastar dos campos e realizar uma cirurgia no ombro para correção de uma lesão no labrum, também conhecida como lesão de SLAP. Rogério deverá ficar afastado dos gramados por até 6 meses.

Vamos entender melhor porque isso aconteceu a um dos goleiros mais conhecidos e respeitados do nosso país.

A lesão tipo SLAP é uma descoberta recente da medicina e é mais comum em atletas, principalmente arremessadores.  Trata-se de um destacamento da porção superior do lábrum, onde se insere o tendão da cabeça longa do bíceps braquial. O lábrum é um tecido que recobre a cavidade da glenóide com a função de aumentar a estabilidade da articulação do ombro. Algumas atividades esportivas ou traumas podem causar rupturas nesse lábrum, gerando dores e limitações. Essas rupturas foram classificadas em 1990 por Snyder em quatro tipos diferentes.

 

Classificação Lesão SLAP :

Tipo I: lábio superior com fibrilações, irregularidades e degeneração

Tipo II : lábio superior destacado da glenóide, existindo um espaço entre a cartilagem e o lábio superior (mais comum)

Tipo III : lesão em “alça de balde” do lábio superior (secção junto a inserção do bíceps)

Tipo IV : lesão em “alça de balde” do lábio superior extendendo-se para o tendão do bíceps.

           

 

Esse destacamento pode ocorrer por vários motivos:

1-      Trauma em abdução e flexão do ombro e cotovelo em extensão, movimento esse muito observado durante o gesto de defesa no chão dos goleiros,

2-      Durante o movimento de desaceleração do arremesso, quando o bíceps desacelera a extensão do cotovelo, provocando a tração no lábio glenoidal Antero-superior,

3-      Trauma em hiperflexão

4-      Mecanismo de Peel Back, ou seja, mecanismo torcional que ocorre com o tendão do bíceps braquial durante o movimento de abdução e rotação lateral do ombro. Esse mecanismo é observado principalmente na lesão SLAP tipo II.

5-      Movimentos repetitivos (overuse)

6-      Luxações reecidivantes

 

É muito comum ocorrer outras lesões no ombro junto com a lesão SLAP. Dentre elas estão as lesões de manguito rotador e a instabilidade dessa articulação. Como o lábrum tem uma função primordial de aumentar a estabilidade da cabeça umeral na glenóide, quando este apresenta alguma lesão, essa estabilidade diminui podendo gerar episódios de luxações ou sub-luxações do ombro. E esses episódios podem piorar a lesão labral e os sintomas do paciente.

A lesão de SLAP é de difícil diagnóstico. O exame mais sensível para essa patologia é a artro ressonância. Trata-se de uma ressonância magnética com contraste injetado no ombro. Porém, algumas vezes o diagnóstico não pode ser feito apenas com métodos de imagem e testes clínicos. Nesses casos, o diagnóstico deve ser feito por meio de uma artroscopia.

O paciente geralmente se queixa de dor mal localizada, estalidos, limitação para certos movimentos (principalmente movimentos acima da cabeça) e disfunção. Dificilmente o paciente irá reclamar de dor em repouso, porém sempre irá reclamar de dor durante suas atividades.

No caso de Rogério Ceni podemos pensar em uma lesão de lábrum do tipo II que se desenvolveu graças a movimentos repetitivos de arremesso e quedas com braço em abdução e flexão. A lesão de Rogério era crônica, provavelmente com lesões nos tendões dos músculos do manguito rotador e acometimento de outras estruturas intra articulares, o que lhe gerava fortes dores durante e pós treino. A opção pelo tratamento cirúrgico se deve a falha do tratamento conservador.

 

Tratamento:

Quando a lesão SLAP é do tipo I ou II, o tratamento inicial é o conservador. O objetivo principal nesse tratamento é a diminuição do processo inflamatório e dor e o ganho de força da musculatura estabilizadora do ombro. É importante tomar cuidado com o ganho de força do bíceps braquial na fase inicial do tratamento, pois é ele quem traciona a porção do lábio lesionado gerando mais dor ao paciente.

Nas lesões do tipo III e IV, o tratamento escolhido é o cirúrgico. Porém quando há falha do tratamento conservador nas lesões do tipo I e II, a cirurgia também é indicada. A cirurgia é feita normalmente por artroscopia e podem ocorrer dois procedimentos distintos. Dependendo da extensão da lesão pode ser feito apenas um debridamento no local da lesão ou a fixação com âncoras da porção do lábrum lesionado na glenóide. No caso de uma fixação ser necessária, a reabilitação pode demorar 6 meses para que o atleta volte as atividades esportivas.

   Na primeira fase da reabilitação é necessário diminuir a dor do paciente com métodos analgésicos (eletroterapia, crioterapia,etc) e manter a amplitude de movimento suportável pelo paciente, com movimentos passivos e leves mobilizações. É importante a realização de exercícios pendulares e alongamentos das estruturas posteriores e rotadores mediais do ombro, porém deve-se evitar a rotação lateral e a abdução dessa articulação. Os exercícios isométricos de rotadores mediais, adutores, flexores e extensores do ombro podem ser feitos.

Após a 6ª semana é possível realizar todos os movimentos do ombro de forma passiva e ativa e iniciar o ganho de amplitude de movimento de toda a articulação e o ganho de força muscular de forma isotônica dos músculos estabilizadores do ombro.

Após o 4º mês de pós operatório, os movimentos de arremesso podem ser iniciados e os treinos funcionais e sensório motor também.

 

                                                                                                                                                                                                                                                         Ft Ana Carolina Villa-Lobos

 

Referências:

1-      Andrews, Reabilitação Física do Atleta

2-      Cohen e Abdalla, Lesões nos Esportes

3-      Mark W, Overhead Throwing Injuries of the Shoulder

Imagens:

LanceNet

Sobre o autor spallafisioterapia

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12 Replies to “O que aconteceu com Rogério Ceni?”

  1. Sou lutador de jiu-jitsu e tive uma lesão no labrum do ombro direito, meu médico disse que preciso operar. Gostaria de saber se poderei voltar as minhas atividades normalmente depois da operação e fisioterapia, pois minhas atividades exigem um pouco mais da articulação.

    1. Com um bom seguimento no pós operatório e respeitando as orientações dados por seu ortopedista e fisioterapeuta você tem tudo para voltar a prática. A solicitação do ombro é muito grande na prática do Jiu-Jitsu e sem o devido reparo na estrutura lesada você pode ter episódios de travamento da articulação, dor e limitação de amplitude de movimento. Sugerimos manter contato com seu ortopedista e conversar sobre um trabalho pré-operatório com a fisioterapia.

  2. Farei a cirurgia com a fixação de âncoras, com quantos dias após a cirurgia devo começar a fisioterapia?

    1. Olá Allan,

      Existem médicos mais conservadores que outros. Pergunte ao seu médico quando ele irá te liberar para fazer a fisioterapia. Alguns orientam o inicio da fisioterapia com 4 semanas, outros com 6 semanas.

      Saudações,

      Spalla Fisioterapia

  3. Tenho 29 anos e jogo vôlei (de forma amadora) 3 vezes por semana a mais de 17 anos, fui diagnóstico com lesão SLAP em grau 1 a três anos atrás, fiz fisioterapias mas não resolveu o problema. Conseguia jogar vôlei com as dores, mas atualmente ela está maior e meu rendimento caiu devido a isto. Tenho pensado em fazer a cirurgia de correção. Gostei bastante da matéria mas fiquei com dúvidas em relação a um ponto, que é quando ela informa que a opção pelo tratamento cirúrgico se deve pela falha do tratamento conservador. Minha pergunta é: essa falha que a matéria se refere é uma falha por conta do profissional (fisioterapeuta) que não soube conduzir a fisioterapia ou a falha é devida a uma particularidade de meu corpo que não respondeu bem ao tratamento conservador?
    Desde já agradeço a atenção!

    1. Boa tarde,

      Quando falamos que a cirurgia se deve a falha do tratamento conservador queremos dizer que se o tratamento realizado com a fisioterapia e medicamentos não eliminar os sintomas, então devemos pensar no tratamento cirúrgico. Essa falha pode ser por conta de uma fisioterapia mal realizada pelo paciente ou por uma fisioterapia mal realizada pelo terapeuta. Se você achar que a fisioterapia realizada não foi eficaz é aconselhável que você procure outro serviço de fisioterapia, de preferência com boa indicação, para então pensar na cirurgia.

      Saudações,

      Spalla Fisioterapia

  4. Olá Ana Carolina, tb sou fisioterapeuta e estou com um paciente com uma lesão em SLAP, ele não apresenta dor em repouso, porém nos movimentos de flexão do ombro e abdução do ombro ele sente dor; relata que no princípio a dor diminuiu bastante, porém ele ainda sente qdo precisa fazer os movimentos acima descritos. Ele não é atleta. Estou na fase de fortalecimento da musculatura do ombro, porém estou com receio de liberá-lo para academia. Qual procedimento devo adotar?

    Att,

    Gisele

    1. Olá Gisele,

      As lesões de SLAP são um pouco complicadas de tratar, pois muitas vezes o tratamento conservador não tira a dor completa do paciente. Mas se a dor do seu paciente diminuiu bastante isso é um bom sinal. Continue com os exercícios de fortalecimento e vá liberando o seu paciente aos poucos para a academia. Oriente ele com exercícios na academia que não exijam os movimentos que ele sente dor e continue com o fortalecimento que você faz na fisioterapia. Tente realizar algumas técnicas de reposicionamento da cabeça umeral associado aos movimentos que ele sente dor normalmente e veja se melhora.

      Saudações,

      Ana Carolina Villa-Lobos

    2. Olá Gisele,

      Pensei ter respondido seu comentário, mas olhando agora vi que não houve resposta. Mil desculpas pela demora.
      A lesão de SLAP é um pouco complicada de ser tratada, principalmente se for do tipo II, pois o paciente sempre fica com alguma dor residual durante certos movimentos. Mas se o seu paciente já melhorou bastante o ideal é continuar com a fisioterapia. Continue com a fase de fortalecimento, pois ela é muito importante. Trabalhe com ele músculos estabilizadores da cintura escapular, como romboides, serrátil anterior, trapézio fibras médias e inferiores e encaminhhe ele para a academia orientando-o com os exercícios. Como ele sente dor ao realizar os movimentos de flexao e abdução do ombro é importante que ele evite exercícios na academia que exijam esses movimentos. Se informe sobre os exercícios que podem ser feitos na academia e explique para ele como fazer. Por exemplo, o supino para ele não é bom ainda e pode gerar bastante dor. Se ele for fazer tríceps o ideal é que faça pulley e não o tríceps francês, onde ele deve elevar o ombro acima de 90º e realizar uma abduçaõ em conjunto.
      Outra coisa que você pode fazer na fisioterapia são técnicas de reposicionamento articular associado ao movimento ativo que ele sente dor. Isso pode ajudar a melhorar os sintomas do paciente.
      Fale com ele para que ele continue a fisioterapia 2 vezes na semana com você para que você trabalhe grupos musculares que ele não trabalharia na academia e para tentar retirar essa dor residual e oriente ele a fazer academia 3 vezes na semana.

      Espero ter ajudado ainda,

      Ana Carolina Villa-Lobos

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