Luxação Glenoumeral – Tratamento Conservador

tratamento conservador no ombro luxadoA articulação glenoumeral é considerada a mais instável do corpo humano e, como descrevemos no post anterior, sua estabilização é feita por mecanismos passivos (lábio glenoidal, cápsula articular, ligamentos glenoumerais, coracoacromial e coracoumeral, pressão intrarticular) e ativos (músculos periescapulares e músculos do manguito rotador). As luxações dessa articulação pode ser classificadas como traumáticas ou atraumáticas, com direções anterior, posterior, superior, inferior ou multidirecional. As luxações traumáticas anteriores são as mais frequentes e chegam à acometer 7% da população de atletas. Em casos de primeiro episódio de luxação traumática, há grandes chances (entre 80 e 90%)  de novos episódios, principalmente em jovens com menos de 20 anos. Quando o atleta sofre uma luxação traumática anterior da articulação glenoumeral, como foi observado no dia da luta entre José Aldo e Jung Chan-Sung, é importante que esse atleta passe inicialmente por uma avaliação médica e se proceda com a redução da luxação após ser descartadas possíveis fraturas ou  compressões do nervo axilar, e posteriormente manter a articulação em imobilização. Se nesse episódio de luxação o atleta não sofrer nenhum tipo de fratura (exemplo de uma fratura da cabeça do úmero, tubérculo menor do úmero) ou ruptura ligamentar, a imobilização com a tipoia deve durar entre 10 à 20 dias e a fisioterapia deve ser iniciada ainda nesse período.

Na primeira fase da reabilitação é necessário reduzir  o edema e controlar a dor. Para isso podemos realizar: crioterapia (4 a 6 vezes por dia, respeitando um intervalo de 2 horas entre as aplicações), liberação miofascial (caso haja presença de trigger points ou tender points),  e eletroterapia (TENS, Interferencial, etc). Uma vez a dor controlada podemos iniciar movimentos ativos de flexo/extensão de cotovelo e exercícios  isométricos para rotadores, abdutores e adutores de membros superiores. Além disso, podemos fazer exercícios escapulares para a conscientização de seus movimentos e iniciar mobilizações na articulação glenoumeral e escápula, para ganho da amplitude de  movimento (ADM).

tratamento conservador no ombro luxado

Com a retirada definitiva da tipóia podemos manter as mobilizações articulares para o ganho da ADM e realizar movimentos ativo- assistidos para complementar o ganho da mesma. Esses exercícios podem ser realizados  com bastão, por exemplo. Nessa fase, mesmo que o paciente não sinta mais dor, o ganho de ADM é difícil, pois é possível que o paciente desenvolva o sinal de apreensão, sensação de que o ombro ainda vai sofrer alguma luxação com os movimentos. Nesses casos é importante deixar o ganho completo do movimento de rotação lateral com o ombro em abdução (no caso de uma luxação anterior) por último.

Ainda nessa fase devemos dar ênfase ao ganho de força muscular. É necessário realizar exercícios para serrátil anterior (inicialmente pode ser feito sentado em frente à maca, evoluir para decúbito dorsal na maca e em seguida em pé na parede e na bola), rotadores lateral e medial com resistências elásticas, bíceps braquial, rombóides, trapézio médio e inferior (a série de Blackburn na maca compõem ótimos exercícios) e por fim deltóide. Esse trabalho de cinesioterapia pode ser realizado, caso necessário, com uma bandagem rígida funcional, assim a articulação é posicionada corretamente e os exercícios são feitos com mais estabilidade. Pode-se também empregar as diagonais de Kabat para melhorar o recrutamento muscular, além dos exercícios básicos para ganho de força. Esse trabalho é muito importante e serve inclusive como tratamento preventivo para evitar possíveis e prováveis novos episódios de luxação.

tratamento conservador no ombro luxado

Ainda nessa fase é importante iniciar um trabalho proprioceptivo com o paciente para estimular os mecanoreceptores presentes em todo o complexo articular do ombro. Para isso podemos usar elásticos, movimentos com vibração, bola, pranchas de equilíbrio, cama elástica, medicine ball, mudanças de direção com arremessos e golpes, bodyblade, entre outros. O importante é realizar exercícios que estimulem os mecanoreceptores de adaptação lenta e os de adaptação rápida (usar exercícios com variações de frequência), trabalhar essa sensação do movimento e posição articular no espaço, sempre tentando chegar o mais próximo possível do gesto esportivo do paciente. Ao evoluir com os treinos de força e os treinos proprioceptivos, iniciamos o retorno ao esporte. Nessa fase é indispensável reintegrá-lo na equipe e local de treinamento, realizar um treino de potência muscular usando o gesto esportivo, evoluir com os treinos proprioceptivos e iniciar treinos pliométricos, além de encaminhar o paciente para uma academia, afim de iniciar um treino geral de força muscular.

tratamento conservador no ombro luxadoPara que esse atleta tenha alta do tratamento ele deve ter:

– ausência de dor (em repouso ou durante gesto esportivo);

– resolução do edema;

– ausência de apreensão ao realizar todos os movimentos da articulação, principalmente o movimento no qual sofreu a luxação;

– apresentar bom trofismo e força muscular;

– sentir segurança ao retornar ao esporte  e realizar o seu gesto esportivo.

Em casos de luxação, sendo primeiro episódio ou não, é importante e necessário que o paciente realize, mesmo após o tratamento fisioterapêutica e a alta,  um treino de fortalecimento da musculatura periescapular e de manguito rotador como tratamento preventivo, principalmente se ele for jovem e atleta competidor. Com essa prevenção é possível reduzir as chances de novos episódios de luxação e assim diminuir as chances de lesões mais graves na articulação, evitando um possível procedimento cirúrgico.

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

Fotos: Yelp, Sports Injury Clinic

Esta matéria foi escrita a partir da solicitação de um leitor. Sugira matérias e temas para o site escrevendo para: contato@spallafisioterapia.com.br

Sobre o autor Ana Carolina Villa-Lobos

Ana Carolina Villa-Lobos escreveu 12 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pelo UniCeub em Brasília, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Supervisora do ambulatório de coluna do CETE. Trabalha com Fisioterapia Esportiva, Terapia Manual e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

Queremos seu comentário...