Lesões na Copa N°5: CASO KAKÁ

Em 29 de novembro de 2009, após o clássico contra o Barcelona no Camp Nou, o camisa 10 da Seleção Brasileira e até então titular do Real Madrid teve que se afastar dos gramados por mais de seis semanas após sentir dores na região do púbis. O meio-campista só voltou a atuar pelo Real Madrid em 10 de janeiro de 2010, na partida contra o Mallorca, pelo Campeonato Espanhol. Kaká estaria com uma osteíte púbica. Essa notícia preocupou a todos, de torcedores a comissões técnicas. Mas o que viria a ser essa pubeíte? Como tratá-la? Em quanto tempo ele voltaria aos gramados? Será que estaria recuperado até a convocação Copa?

Esses questionamentos vieram à tona quando Kaká se lesionou. Porém, após 42 dias sem representar o Real Madrid no Campeonato Espanhol, os médicos e fisioterapeutas responsáveis por sua reabilitação mostravam-se otimistas com os resultados obtidos. O médico da Seleção Brasileira, José Luiz Runco, afirmou que a lesão de Kaká não era grave e que ele acreditava que o atleta não seria problema para o técnico Dunga na lista da Copa do Mundo deste ano. O fisioterapeuta Luiz Rosan ainda ressaltou que as lesões em final de temporada do futebol europeu são um fato rotineiro: “O Kaká teve uma sobrecarga exaustiva de trabalho, a musculatura reclamou e fez edema, mas eu confesso para você que não preocupa”.

O púbis é um dos três ossos da pelve onde estão inseridos os músculos adutores e parte dos abdominais. Essa região é particularmente susceptível a diversas forças durante atividades atléticas que, em excesso, pode levar a uma inflamação, a conhecida popularmente como pubeíte ou pubalgia. A osteíte púbica é descrita como um processo inflamatório que acomete a sínfise púbica (articulação entre os ossos do púbis), produzindo alterações na cartilagem, ossos, ligamentos e músculos, principalmente os adutores e abdominais. Ela pode surgir através de traumas repetitivos (ou trauma agudo em alguns casos), mudanças bruscas de direção, impactos e desequilíbrios musculares.

Os sintomas principais incluem dor na região púbica, dor na origem dos adutores e dor escrotal. O atleta pode referir dor durante a corrida, aos exercícios abdominais e aos agachamentos. Além destes, dor na região abdominal inferior, irradiando para região interna da coxa. Os movimento de passada lateral, cabeceio, flexão de quadril e do tronco podem ser dolorosos. Nos pacientes submetidos aos esforços físicos, essa dor pode tornar-se progressiva e intensa, incapacitando-os para as atividades esportivas. Esses sintomas, muitas vezes são confundidos com dores musculares, o que torna seu tratamento mais demorado. Por isso, é de extrema importância um diagnóstico preciso ainda em sua fase inicial. Uma vez diagnosticada na fase precoce, seu tratamento será mais efetivo.

Nos atletas de futebol profissional a principal causa da lesão é o desequilíbrio muscular entre os adutores e reto do abdômen, devido ao excesso de treino, excesso de jogos e posição principal do jogador na equipe. Além disso, essa área da sínfise púbica é particularmente suscetível às forças lesivas durante a corrida, o salto e o chute. Nesse momento, a sínfise movimenta-se para cima e para baixo, chegando a rodar levemente, o que facilita os microtraumas. Jogadores de meio de campo, como o Kaká, estão mais susceptíveis a esta lesão, devido a sua movimentação em campo, ou seja, por sua posição eles geralmente fazem um giro de perna para fora e tocam a bola com a parte interna do pé. Esse movimento pode aumentar o “estresse” na musculatura que se insere no púbis, levando tais microtraumas e a possíveis alterações estruturais na região púbica.

TRATAMENTO: a primeira escolha deve ser o conservador, com o uso de anti-inflamatórios, fisioterapia e repouso (sem a prática esportiva). Em caso de atletas de alto nível (que não podem parar), é indicado manter o condicionamento físico com hidroterapia (deep-running, bike subaquática) e as atividades de alto impacto devem ser evitadas. Esse tratamento pode demorar de três semanas a três meses, podendo demorar até seis meses. Se a dor e a incapacidade de retornar ao esporte persistirem, a intervenção cirúrgica pode ser necessária. Após a cirurgia o atleta retorna ao esporte progressivamente em um período de dois a três meses.

No caso do Kaká, os médicos optaram pelo tratamento conservador. Realizaram a fisioterapia e o afastaram do esporte por 42 dias. O jogador voltou aos gramados garantindo que estava sem dores, porém não teve uma continuidade de jogos e por isso não teve ritmo de jogo. Minha opinião é que não foi a pubeíte que levou o nosso meio campista a ter tal desempenho na Copa, mas sim a sua falta de preparo e condicionamento físico. E mesmo com esse desempenho, sem Kaká nos jogos do Brasil, de 86,8%, o aproveitamento da equipe cai para 61,4% (DataFolha). Infelizmente nossa equipe não jogou o melhor futebol, mas sem o Kaká será que teríamos chegado as quartas de final?

Ft Ana Carolina Villa-Lobos

Referências
Meyers W.C. Am J Sports Med 28: 2-8, 2000
Alexander Spence, Anatomia Humana Básica, 2° Ed, 2002
www.cbf.com.br
www.milton.com.br/esporte
Fotos: Agência EFE

Sobre o autor Ana Carolina Villa-Lobos

Ana Carolina Villa-Lobos escreveu 12 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pelo UniCeub em Brasília, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Supervisora do ambulatório de coluna do CETE. Trabalha com Fisioterapia Esportiva, Terapia Manual e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

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