Lesãoo Medular (Parte I)

lesão medular Lais SouzaEm 27 de janeiro desse ano, a ex-ginasta olímpica Lais Souza sofreu um acidente enquanto treinava sua nova modalidade esportiva, o esqui aéreo. A atleta mudou de modalidade há 6 meses e tentava uma vaga nas Olimpíadas de Inverno em Sochi quando, ao aterrissar de um salto, bateu em uma árvore e  sofreu uma fratura e luxação na vértebra C3.

Lais foi operada e hoje ainda respira com a ajuda de aparelhos, mas já  apresenta leve sensibilidade em partes dos braços e tórax e leve movimentação de ombros. Os médicos não sabem dizer se houve lesão completa ou parcial da medula, mas estão otimistas quanto a recuperação de Lais. No momento o mais importante é conseguir realizar o desmame progressivo do ventilador  mecânico.

A atleta está realizando fisioterapia motora e respiratória e terapia ocupacional no hospital onde está internada nos Estados Unidos para ajudar na melhora de seu quadro atual e prevenir complicações.

O indivíduo que sofre uma lesão medular por trauma tem o seu estilo e opções de vida completamente modificados, pois a medula espinhal é responsável pela regulação das funções respiratória, circulatória, excretora, sexual, térmica e é a via condutora de estímulos motores e sensitivos que vem e vão da periferia para o encéfalo e vice-versa. Um paciente que sofre uma lesão medular em cervical alta, por exemplo, tende a ficar tetraplégico, ou seja, perde os movimentos e sensibilidade dos membros superiores, tronco e membros inferiores.

lesão medular Lais Souza

Nessa primeira parte vamos tentar entender um pouco mais sobre a medula espinhal e seus componentes.

O sistema nervoso central (SNC) é formado pela medula espinhal e pelo encéfalo. A medula é constituída por células nervosas, chamadas de neurônios, e por longas fibras nervosas, chamadas de axônio e que formam as vias espinhais. As vias descendentes conduzem sinais gerados no cérebro relacionados com o movimento e o controle visceral. Já as ascendentes conduzem sinais relacionados com a sensibilidade, que são gerados na periferia e levados para o cérebro. Os neurônios se localizam na substância cinzenta da medula (formato de borboleta), sendo que os neurônios que se encontram na região anterior da medula estão relacionados com o movimento (são os neurônios motores inferiores) e os que se encontram na região posterior estão relacionados com a sensibilidade.

lesão medularA medula é organizada em segmentos e em cada segmento temos raízes nervosas que inervam regiões específicas do corpo. Na cervical, por exemplo, temos oito segmentos que controlam a sensibilidade e o movimento da cervical e dos membros superiores. Ao nível cervical as raízes saem acima da vértebra correspondente, ou seja, a raiz de C3 se encontra entre C2 e C3. No caso de Lais Souza, ela sofreu uma lesão no segmento cervical C3, o que pode ter  lesionado a medula no nível de C3 ou de C4 e comprometido os nervos e músculos do diafragma, dos membros superiores e inferiores, além de comprometer o  controle esfincteriano. Se Lais tiver sofrido uma lesão medular completa, ela não apresentará movimentos voluntários e sensibilidade abaixo do nível da lesão, ou seja, abaixo de C3, mas em seu quadro evolutivo Lais tem sentido alguma sensibilidade e leve movimento dos braços, o que pode indicar que a lesão medular tenha sido incompleta. Infelizmente uma traqueostomia e uma gastrotomia foram realizadas no segundo dia após a lesão, o que pode indicar que os médicos perceberam a gravidade e extensão da lesão de Lais e sua não regressão.

lesão medularNa fase aguda de uma lesão medular é muito importante o papel da fisioterapia e da terapia ocupacional. Nessa fase o paciente apresenta flacidez dos membros paralisados, abolição dos reflexos tendinosos e retenção urinária. Essa fase é chamada de choque medular e pode durar por meses. Com o passar do tempo pode haver recuperação dos movimentos, aumento dos reflexos e do tônus muscular e presença de espasmos musculares. A fisioterapia respiratória e motora nessa fase vão ajudar na prevenção de pneumonia, escaras, trombos, rigidez articular, dor neurogênica, etc. Já a terapia ocupacional irá ajudar o paciente no retorno de suas habilidades motoras e cognitivas no que diz respeito às suas atividades básicas do dia à dia, como a alimentação, higiene, banho, vestuário,etc..

A fisioterapia motora é fundamental para evitar ou minimizar deformidades articulares, osteopenia (enfraquecimento dos ossos) e consequentemente fraturas secundárias à ela, rigidez articular e trombose venosa profunda. A realização diária de mudanças de decúbito são essenciais para evitar o surgimento de úlceras de pressão, assim como o cuidado com a pele (uso de óleos e hidratantes). Os locais mais comuns para a aparição de úlceras são no trocânter, joelho, maléolo, calcâneo, sacro, ísquios, escápulas, ombro, cotovelo, occipito e hálux. Se as úlceras não forem bem cuidadas, elas ficam cada vez maiores e profundas, podendo chegar até os ossos e causando infecções nessa região. Uma vez a infecção nessa região, a cura se torna muito difícil, o que torna a úlcera de pressão uma das principais causas de morte em indivíduos com lesão medular. Aliviar a pressão sobre a pele periodicamente, manter uma alimentação saudável, ingerir de 2 a 3 litros de líquidos por dia, manter a pele limpa e seca e fazer uso de roupas leves são medidas que auxiliam na prevenção da formação de úlceras.

lesão medularA fisioterapia respiratória facilita a eliminação de secreções, reduzindo assim as incidências de infecções e outras complicações pulmonares. Os cuidados com as vias urinárias e o intestino também são muito importantes, já que infecções nessa região já foram a principal causa de óbito em pacientes com lesão medular no passado. Para evitar infecções nas vias urinárias ou até mesmo no rim, um cateter é introduzido a cada 3 ou 4 horas durante o dia para o esvaziamento da bexiga. Para as alterações de controle intestinal, um programa de reeducação é realizado para que o intestino funcione sempre no mesmo horário, e assim facilite a prática de atividades fora de casa. Todas essas medidas podem reduzir a morbidade e a mortalidade desses pacientes, além de melhorar sua qualidade de vida.

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

Referências:
http://www.wgate.com.br/
http://www.sarah.br/
http://esportes.terra.com.br/

Sobre o autor Ana Carolina Villa-Lobos

Ana Carolina Villa-Lobos escreveu 12 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pelo UniCeub em Brasília, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Supervisora do ambulatório de coluna do CETE. Trabalha com Fisioterapia Esportiva, Terapia Manual e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

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