Lesões no Karatê

BodhiDharmaO Karatê é uma arte marcial milenar cujo precursor foi Bodhi-Dharma, o mesmo que fundou o zen-budismo da Índia. Mas foi no Japão, mais precisamente na ilha de Okinawa, que o Karatê foi definitivamente sistematizado como a luta das mãos livres, ou melhor, sem armas. Assim como toda arte marcial, o Karatê consiste em uma filosofia atrelada a uma técnica de luta, pois seu desenvolvimento se deu entre muitos períodos de guerra no Oriente. Devido ao fato do Karatê ter sido praticado secretamente no passado, um grande número de estilos foi desenvolvido. Os mais praticados são Shotokan, Goju-Ryu, Shito-Ryu e Wado-Ryu, cujas filosofia e luta são as mesmas, com algumas variações.

Atualmente, o Karatê é um esporte difundido globalmente dentre os seus diversos estilos e está cogitado para fazer parte das modalidades esportivas dos Jogos Olímpicos de 2016. Apesar de ser uma arte marcial com número crescente de praticantes, o número de lesões não acompanha lado a lado esse crescimento, uma vez que grande parte dos praticantes visa a qualidade de vida e apenas uma parcela menor de atletas direciona seu treinamento para as competições. Seria lógico encontrarmos um maior número de lesões com a crescente demanda de praticantes, contudo, uma das virtudes do Karatê consiste em conter o espírito de agressão e a manutenção da integridade física.

Além das características filosóficas orientais, a prática da repetição excessiva dos movimentos leva a perfeição (como nos filmes O Último Samurai e Karate Kid). Essa repetição também propicia a formação de engramas neuromusculares, os quais favorecem o atleta nos momentos de combate, permitindo movimentos rápidos, precisos e de proteção à sobrecarga. Outras características específicas que diminuem o risco de lesões por sobrecarga no carateca enquanto praticado como atividade física do que o atleta de competição são:

karatê– prática em tatame, o que reduz o impacto transmitido as articulações;

– alinhamento corporal durante a execução dos movimentos;

– giros e deslocamentos executados sem grandes oscilações do centro de gravidade e aproximando-o do solo;

– distribuição de peso nos pés sem sobrecarga de antepé ou retropé;

– a respiração acontece da seguinte maneira: inspiração na preparação e expiração na execução do movimento, o que facilita o recrutamento e ativação precoce dos músculos do CORE, contribuindo para a estabilização segmentar vertebral, prevenção de lesões periféricas, distribuição adequada da força ao longo da cadeia cinética e aumento da performance;

– condicionamento cardiovascular;

– transição de atividade aeróbica para anaeróbica de forma instantânea durante uma competição;

– preparo físico realizado tradicionalmente de maneira funcional.

karatêZetaruk et al (2000) estudou o risco de lesões no Karatê através da aplicação de questionários a 114 caratecas. Seus resultados revelaram que não havia diferença entre os sexos, mas sim entre as graduações: quanto mais próximos da faixa preta (maior graduação) mais lesões os atletas haviam sofrido. Os autores relacionaram o achado ao fato de que, quanto mais tempo de prática mais os atletas acumulavam lesões em seu histórico, as quais eram relacionadas a trauma direto, em sua maioria. Ou seja, não há um aumento na ocorrência de lesões por sobrecarga como pudemos observar em outras modalidades esportivas nos últimos 15 anos. Hoje, a incidência de lesões ocorre por trauma direto e se distribui da seguinte maneira: a maior parte ocorre na cabeça (lacerações, fraturas de nariz e mandíbula), seguida por membros inferiores, membros superiores (lacerações, entorses e luxações) e tronco (fratura de costelas e luxação de cartilagem costal). Como as lacerações estão no topo das estatísticas, a maioria das federações aderiu ao uso de luvas e caneleiras com proteção da região dorsal dos pés nos estilos de combate. Essa prática protege as mãos do atleta que aplica o golpe e protege karatêde maiores lacerações o que o recebe, no entanto não diminui a energia do golpe. Para inclusão nos Jogos Olímpicos, haverá inclusão de protetores de cabeça e tórax.

Pode-se dizer, portanto, que a evolução do Karatê se deu de maneira diferenciada. É um esporte, uma filosofia e um estilo de vida que equilibra e preserva corpo e alma. Tradicionalmente KI, SHIN, TAI – 気、心、体 (mente, corpo, espirito).

Ft. Thaís Bortolini Bueno

Colaboração: Alexandre Bittencourt Moreira (Fisioterapeuta e Atleta de Karatê)

Sobre o autor Thaís Bortolini Bueno

Thaís Bortolini Bueno escreveu 8 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pela UFSCar, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/UNIFESP. Estuda Fisioterapia Esportiva com ênfase em Desempenho e Prevenção. Atua nas cidades de São Paulo e Jundiaí com atletas de corrida de rua, tênis e vôlei de praia.

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