Lesão SLAP e o ombro do arremessador – Murilo Endres pára por um tempo

Murilo Endres lesão SLAPNa última sexta-feira (03∕05∕2013), o jogador de vôlei Murilo Endres, passou por uma cirurgia no ombro direito para tratar uma antiga lesão que já o acompanhava há mais de dois anos nas quadras. Mesmo sendo operação recomendada desde o diagnóstico, o ponteiro optou por conviver com o incômodo. À base de medicamentos e muita fisioterapia ele conseguiu comandar a Seleção Brasileira na conquista da medalha de prata nas Olimpíadas de Londres, em 2012. O atleta, que também já foi considerado o melhor jogador da Liga Mundial, irá desfalcar a Seleção na disputa do campeonato deste ano, já que sua recuperação e volta aos treinos está estimada para acontecer dentro de 5 a 6 meses. O atleta apresentava uma lesão SLAP, uma das lesões mais comuns no ombro do arremessador. Clique aqui para conferir o que já escrevemos sobre este tipo de lesão. O jogador não teve seu contrato com o Sesi-SP renovado para a próxima temporada e assim optou pelo tratamento cirúrgico. “A minha vontade era permanecer mas, enfim, preciso me concentrar na operação, em cuidar do ombro para voltar bem na próxima temporada e buscar um novo clube para mim. Essa é a minha prioridade agora”, disse Murilo quando deixou o clube paulista, em de abril.

O ombro do arremessador representa um conjunto de alterações que ocorrem principalmente em praticantes de esportes no qual o movimento de arremesso está presente: voleibol, handebol, natação, tênis, beisebol, entre outros. A prática esportiva por período prolongado pode causar alterações na biomecânica do ombro, como contratura da cápsula posterior, lesões do lábio superior (lesão SLAP) e discinesia escapular.

ombro do arremessador

A primeira alteração, bastante comum, que ocorre no ombro dos arremessadores é a perda de amplitude de movimento de rotação interna e, concomitante, aumento na amplitude de rotação externa, devido à contratura da cápsula articular posterior do ombro. Esta alteração é conhecida como GIRD (Glenohumeral Internal Rotation Deficit), e pode ser o início de toda a cascata de alterações na biomecânica do ombro durante o arremesso. Muitos arremessadores podem ter essa restrição de movimento e não apresentarem nenhum sintoma, mas consideramos que devam ser tratados para evitar futuras lesões.gird

Essa alteração na amplitude de movimento do ombro durante o arremesso pode modificar o eixo de rotação da cabeça do úmero, na cavidade glenóide, para superior e posterior, comprometendo a microestabilidade do ombro e levando o tendão da cabeça longa do bíceps a movimentos de torção (cuja evolução pode tracionar o lábio glenoidal e causar a lesão SLAP).

A partir deste ponto, o atleta pode passar a sentir dores durante o movimento do arremesso, principalmente na fase de armação (quando o máximo de rotação externa é executada). Outras lesões podem ocorrer nos ligamentos do complexo da articulação glenoumeral e nos tendões do manguito rotador. Na presença de todas essas alterações e lesões, a limitação do arremessador passa a ser importante, dificultando ou impossibilitando qualquer tipo de arremesso. O movimento da escápula também pode ficar alterado, piorando o quadro de dor. No caso de Murilo, nas últimas competições, o jogador trocou o saque forçado por um flutuante, que não exigia tanto do ombro, e também “aliviou” nos ataques.

O tratamento do ombro do arremessador não é simples, pois aqui tratamos de uma síndrome complexa com diversas causas e alterações biomecânicas. O tratamento deve se basear no reequilíbrio da articulação, considerando fortalecimento do manguito rotador para melhor distribuição de cargas; estabilização e reposicionamento da escápula; mobilidade da coluna torácica para maior participação no movimento do arremesso; treino sensório-motor coordenando as correções feitas ao longo do tratamento com o gesto esportivo.

Porém, como já se sabe, a chave para a saúde de um atleta e seu bom rendimento esportivo está na prevenção de lesões. No caso do ombro do arremessador, as alterações mais iniciais, como o GIRD, sugerem futuras lesões que podem ser evitadas com medidas simples, como: alongamento da cápsula posterior, fortalecimento do manguito rotador e mobilidade de escápula e coluna torácica.

Murilo Endres lesão SLAPApós receber alta do hospital, Murilo ficou confiante e tem tudo para voltar a jogar seu voleibol em altíssimo nível: “Correu tudo bem e isso é o mais importante. Os médicos me deixaram muito tranquilo e agora é tomar todos os cuidados para ter um bom pós-operatório”, disse o jogador. “Não é hora de ter pressa. É um processo lento, por isso preciso ter paciência, para voltar zerado.”

Ft. Thaís Bortolini Bueno e Ft. Fernando Cassiolato

Sugestão de Leitura: The disabled throwing shoulder: Spectrum of pathology part I: Pathoanatomy and biomechanics
Foto: Alexandre Arruda CBV

Sobre o autor Thaís Bortolini Bueno

Thaís Bortolini Bueno escreveu 8 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pela UFSCar, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/UNIFESP. Estuda Fisioterapia Esportiva com ênfase em Desempenho e Prevenção. Atua nas cidades de São Paulo e Jundiaí com atletas de corrida de rua, tênis e vôlei de praia.

Queremos seu comentário...