Lesão na panturrilha – Tiago Splitter

O brasileiro Tiago Splitter foi convocado, mas não poderá jogar a partida festiva dos novatos da liga americana NBA no All Star Game 2012, que será realizado este ano em Orlando (Flórida) entre os dias 24 e 26 de fevereiro. O pivô se machucou na partida de seu time (San Antonio Spurs) contra o Los Angeles Clippers, no último sábado (18/02). Logo após a partida Splitter foi avaliado pelo Dr. David Schmidt e ontem saiu a confirmação do diagnóstico: estiramento do músculo gastrocnêmio da perna direita. A lesão ocorreu durante o primeiro quarto do jogo. O brasileiro já iniciou a reabilitação, mesmo estando junto com o time em viagem, e seu retorno está previsto para duas semanas.

Antes de discorrer sobre a lesão, este caso chama atenção para um fato: o atleta já iniciou o tratamento, mesmo estando em viagem com o time! Muito clubes e até mesmo seleções, das mais variadas modalidades, dispensam a atuação da fisioterapia durante partidas e viagens. Se não houvesse a disposição um profissional da fisioterapia na comissão dos Spurs para iniciar a reabilitação, será que este prazo de duas semanas seria suficiente? Vale a pena correr o risco de não integrar um fisioterapeuta na delegação que viaja e ter trabalho com toda a logística de retornar um atleta lesionado antes do grupo para o clube?

As lesões na panturrilha são mais comuns entre os esportes em que o salto é envolvido, como basquete e voleibol, e dentre os velocistas. O músculo gastrocnêmio é formado pelas porções medial e lateral, com origens respectivamente nos côndilos medial e lateral do fêmur, e têm inserção comum no calcâneo. A ação principal deste músculo é realizar a flexão plantar do pé, porém em cadeia cinética aberta (quando a perna não está suportando o peso do corpo apoiada ao chão) pode agir como agonista na flexão do joelho. A literatura aponta que as porções do músculo gastrocnêmio poderiam ser consideradas músculos diversos, pois apresentam diferentes arquiteturas, tipos de fibras e função. Já discorremos anteriormente sobre o tratamento de uma lesão muscular, o que pouco se diferencia na conduta fisioterapêutica de um músculo para o outro. O que realmente importa agora é compreender a anatomia e biomecânica do músculo em questão, para poder atingir os melhores resultados durante a reabilitação. (Clique aqui para ler o que já escrevemos sobre o tratamento de uma lesão muscular).

Analisando o músculo gastrocnêmio temos que sua porção medial é composta por fibras de menor comprimento, porém com uma angulação maior que a porção lateral, apresentando mais fibras por secção. Consequentemente, é a porção medial que apresenta maior capacidade de geração de força de todo o conjunto do tríceps sural. Como sua ativação neural também é mais rápida, a grande maioria das lesões no gastrocnêmio situam-se na porção medial. Estudos com eletromiografia apontam ainda que existe uma diferença estrutural dentro do gastrocnêmio medial, o qual não apresenta uma uniformidade de ativação muscular, sendo sua porção distal a primeira a apresentar atividade elétrica nos estudos. Essas diferenças neuromusculares no conjunto tríceps sural indicam que cada parte dos músculos desempenhar um papel durante a contração muscular.

O exercício com carga deve ser implementado durante o processo de reabilitação muscular. No músculo em questão o movimento de flexão plantar, produzindo a elevação do corpo com joelho e quadril em extensão, pode ser um dos exercícios de escolha com três variações: perna em posição neutra, rotação interna ou externa. A rotação interna do membro projeta a linha de força lateralmente e na rotação externa medialmente. Estas mudanças explicam achados eletromiográficos que indicam maior ativação da porção medial em rotação externa e maior ativação da porção lateral em rotação interna. Quando o membro é mantido em posição neutra, não há diferença significativa de ativação muscular.

Embora os estudos atuais não concluam se a ativação seletiva das porções do gastrocnêmio se traduz em maiores adaptações, eles fornecem algumas evidências objetivas sobre a qual os profissionais podem se basear na escolha de exercícios mais específicos.

Na atual temporada Splitter tem médias de 9,4 pontos e 5,2 rebotes em 20,7 minutos por partida. Vai se juntar no estaleiro da NBA, por algum tempo, com os brasileiros Nenê e Anderson Varejão, também lesionados.

Ft. Fernando Cassiolato

Referências:
Kinugasa R et al.J Appl Physiol 99:1149-1156, 2005.
Riemann BL et al. J Strength Cond Res. 2011 Mar;25(3):634-9.

Fotos: Spurs, Arquivo Pessoal

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

4 Replies to “Lesão na panturrilha – Tiago Splitter”

  1. Muito bom, Fer…
    A melhor colocação é sobre a presença de um fisioterapeuta na delegação! Isso é muito importante!

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