Lesão em cervical tira Jaqueline da disputa pelo ouro no Pan Americano

Na noite deste sábado, na estréia do Brasil no Pan contra a Republica Dominicana, Jaqueline sofreu uma queda e bateu a parte de trás da cabeça na cabeça da líbero Fabi. A jogadora ficou caída no chão até chegar a equipe médica, e então teve o pescoço imobilizado e foi retirada de maca para em seguida ser levada ao Hospital Real San Jose, em Guadalajara. Jaqueline passou por uma tomografia computadorizada e uma ressonância magnética, ficando constatadas a concussão cerebral e a fratura cervical, sem lesão na medula.

Em caso de lesão medular, a jogadora teria perdido alguns movimentos dos braços e todos os movimentos da cintura para baixo. Como a lesão foi em C5-C6, as raízes abaixo de C5 teriam sido comprometidas, o que significa que ela teria perdido movimentos de flexão e extensão do cotovelo, dos dedos (movimentos de pinça, por exemplo, o que a impediria de pegar objetos com as mãos) e dos membros inferiores, entre outros. Porém, o fato de Jaqueline ter tido seu pescoço imobilizado pode ter evitado uma possível compressão na medula pelo fragmento fraturado e por isso, a atleta sofreu apenas fraturas em duas vértebras cervicais e recebeu alta no dia seguinte.

Em casos como o de Jaqueline, o tratamento torna-se mais simples e pode ser tratado de forma conservadora. A jogadora terá que usar um colar cervical por oito semanas, para que haja a consolidação das fraturas das vértebras C5 e C6 e tomar AINE para reduzir a dor e a inflamação no local. Após o tempo de imobilização, Jaqueline deverá fazer fisioterapia para recuperação da musculatura cervical e dos movimentos articulares.

ANATOMIA COLUNA CERVICAL

A coluna cervical é composta por sete vértebras que estão subdivididas em superior, sendo composta de atlas (C1) e axis (C2), e inferior que começa em C3 e termina em C7. A cervical superior tem uma menor mobilidade comparada com a inferior, que possui larga amplitude de movimento. Cada vértebra é formada por um corpo vertebral, um disco intervertebral e ligamentos na porção anterior, facetas e cápsulas articulares em sua porção lateral, processos espinhosos e transversos em sua porção posterior. As fraturas podem ocorrer nas porções laterais (pars articulares) e posteriores (processos espinhosos e transversos) e podem ser estáveis, quando não há mudanças estruturais que causem danos à medula ou às raízes nervosas, ou instáveis.

 CONSOLIDAÇÃO DE UMA FRATURA

Quando a fratura é classificada como estável, o tratamento é conservador e é necessário imobilizá-la para que haja um processo de consolidação. Este processo é caracterizado por 3 fases:

  1. Fase Inflamatória (duração de 1-2 semanas) – Inicialmente, a fratura incita uma reação inflamatória. O aumento da vascularização que envolve a fratura permite a formação de um hematoma de fratura, que em breve será invadido por células inflamatórias, como neutrófilos, macrófagos, e fagócitos. Essas células, inclusive os osteoclastos, funcionam de modo a eliminar o tecido necrosado, preparando o terreno para a fase reparativa.
  2. Fase Reparativa (meses) – Nessa fase o hematoma de fratura é então invadido por condroblastos e fibroblastos, que depositam a matriz para o calo. Inicialmente, forma-se um calo mole, composto principalmente por tecido fibroso e cartilagem. Então, os osteoblastos iniciam o processo de mineralização desse calo mole, convertendo-o num calo duro, o que aumenta a estabilidade da fratura.
  3. Fase de Remodelamento – Essa fase consiste em atividades osteoblásticas e osteoclásticas que resultam na substituição do osso desorganizado e imaturo por osso organizado e maduro. Ocorre reabsorção do osso das superfícies convexas e formação nova de osso nas superfícies côncavas.

No tratamento de uma fratura estável na cervical, como foi o caso da nossa jogadora Jaqueline, deve ser feito primeiramente a imobilização com um colete cervical, para que haja o processo de consolidação. O uso desse colete é normalmente de oito semanas, podendo se estender um pouco mais.

Com o uso do colete, as musculaturas superficiais e profundas do pescoço perdem trofismo e força, por isso o papel da fisioterapia após a retirada do imobilizador é tão importante. Além disso, durante o trauma alguns músculos entram em contração na tentativa de proteger o local da lesão, o que leva o paciente a ter pontos dolorosos em certos grupos musculares e até mesmo perda de movimento.

Após a retirada do colete o atleta é encaminhado para a fisioterapia. Nessa fase a fisioterapia deve promover o alívio da dor e recuperar a amplitude de movimento completa do pescoço. Para isso podemos utilizar de recursos como a eletrotermofototerapia, que irá promover um alívio da dor e um relaxamento da musculatura, tornando mais fácil o ganho de movimento e promovendo analgesia. Além disso, podemos fazer uso de terapias manuais para mobilizar alguma vértebra que possa estar hipomóvel. Muitas vezes, pacientes que apresentam dor em região cervical têm hipomobilidade na região torácica. É importante fazer uma avaliação completa da coluna para observar a harmonia do movimento de cada vértebra, já que uma vértebra com pouca mobilidade pode sobrecarregar outra vértebra vizinha, causando maior instabilidade no local. Mas cuidado ao realizar mobilizações nas vértebras que sofreram fratura! É muito importante saber se a fratura já está consolidada, para então realizar qualquer tipo de mobilização. Os alongamentos também são importantes nessa fase da recuperação.

Em seguida, a fisioterapia deve iniciar um trabalho de fortalecimento, tanto de musculatura superficial como também da musculatura profunda do pescoço (multifídeos, longo da cabeça e longo do pescoço). A musculatura superficial é considerada dinâmica, já a profunda é uma musculatura estabilizadora. Para trabalhar a estabilização da coluna cervical devemos realizar exercícios de flexão da cervical alta (conhecido também como Chin Tuck Exercise) em 3 etapas:

  1. Fase Cognitiva: paciente deve ter conhecimento da musculatura que irá fortalecer e aprender a contraí-la isoladamente (fisioterapeuta pode dar o feedback ao paciente ou fazer uso do Stabilizer ®)
  2. Fase Associativa: paciente sabe como contrair a musculatura e começa a associar alguns movimentos durante a contração (levantar um braço, uma perna, fica sentado, levantar, etc)
  3. Fase Autonômica: paciente realiza a contração da musculatura profunda automaticamente, de forma involuntária (para chegar nessa fase o paciente demora em torno de 6-8 semanas).

Associado a esse trabalho da musculatura profunda devemos fortalecer a musculatura superficial. Para isso podemos iniciar os exercícios de forma isométrica e evoluir para a contração isotônica com resistência externa (faixas elásticas, pesos, etc). É importante fortalecer também a musculatura periescapular (serrátil anterior, grande dorsal, rotadores laterais e mediais, trapézio médio e inferior) para uma maior estabilidade.

Para finalizar o tratamento é necessário realizar um treino sensório-motor, para que o atleta tenha um retorno completo ao esporte. O objetivo do treino sensório-motor é realizar integrações centrais, sensoriais e motoras e manter a integridade das articulações durante os movimentos corporais e as manutenções de postura. O programa de treinamento sensório-motor deve ser realizado de forma especifica para o esporte em questão, pois cada esporte possui características próprias. O programa deve ser realizado de forma progressiva e deve focar alguns aspectos, como: flexibilidade, agilidade, força, treino de gesto esportivo e pliometria (essa última melhora a estabilização articular e potencializa a contração muscular). Podem ser utilizados vários equipamentos no treino sensório-motor, sendo estes, colchões e colchonetes, dynadisc, bolas, cama elástica (mini trampolim), giroplano, prancha de equilíbrio, faixas elásticas, entre outros.

O tratamento completo após uma fratura na região de cervical é simples, porém requer cuidado. É importante respeitar todas as etapas do tratamento, desde o tempo de consolidação da fratura até o retorno ao esporte do atleta.

Vamos torcer para que a nossa jogadora Jaqueline consiga voltar aos treinos a tempo de participar do mundial de voleibol!!

Ft Ana Carolina Villa-Lobos

Referências:
Cleland JA et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2005 Dec;35(12):802-11.
Beazell J, Magrum E. Clin Sports Med 2003; 22:523-557.
Tratamento e Reabilitação de Fraturas – Hoppenfeld

Fotos: Globoesporte

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