Fratura por stress – Parte I

A “fratura por stress” é considerada uma lesão freqüente em atletas competitivos e recreacionais. Breithraupt, em 1855, foi o primeiro a descrever a lesão no 5º metatarso em soldados (“march fracture”). Em 1958, Devas relatou a lesão em atletas. Essa lesão resulta da falta de capacidade do osso se remodelar devido ao excesso de stress. Normalmente uma “reação de stress” precede a fratura por stress, sendo observada algumas falhas, porém sem afetar a cortical do osso. Essa lesão ocorre principalmente pela falha do osso de se remodelar em resposta a aplicação de cargas repetitivas, por exemplo observada em atividades como a corrida, na qual as forças de reação do solo são de três a oito vezes maiores que na caminhada. É uma lesão comum em corredores.

 Patofisiologia

O osso se apresenta como um tecido organizado e dinâmico, constituído por componentes metabólicos e estruturais. O componente metabólico é descrito como a homeostase mineral e a remodelação óssea. Já o componente estrutural envolve a manutenção da integridade e a remodelação óssea.

Há três principais células ósseas: osteoblastos, osteócitos e osteoclastos. Os osteoblastos tem a função primária de produzir a matriz óssea. Os osteócitos são osteoblastos formados, cercados por matriz óssea mineral., tendo como principal função o controle de concentrações extracelulares de cálcio e fósforo. Por fim, os osteoclastos, são derivados de percursores hematopoiéticos, com a função de reabsorção óssea. Os osteoclastos reabsorvem o osso dissolvendo os cristais de hidroxipatita e o colágeno.

Normalmente, a parte mineral (inorgânica) corresponde a 60% do tecido, a orgânica 35% e água 5%. A fase mineral consiste de cálcio cristalino hidroxiapatita, responsável por suportar forças compressivas, já a fase orgânica consiste em 90% de colágeno tipo I, suportando forças de tensão.

 De acordo com a lei de Wolff, o osso tem uma resposta de remodelamento a um estímulo mecânico. Além disso, osso responde a mudanças piezoelétricas, como forças de tensão criando eletropositividade e estimulando a atividade osteoclástica, enquanto forças compressivas criam eletronegatividade e estimulando a atividade osteoblástica.

 A partir do momento que o atleta inicia ou aumenta a intensidade de um programa de exercício, pode ocorrer um aumento na carga a ser absorvida pelo osso. O corpo muitas vezes responde com o aumento da atividade osteoclástica e osteoblástica. Se a mesma área continua a ser submetida a esse stress, por vezes o osso não tem o tempo adequado para o reparo. Outra hipótese é uma disfunção muscular por overuse resultando em uma força de tem~so que excede a tolerância estrutural e fisiológica do osso.

Dessa forma, episódios repetitivos de sobrecarga podem levar a progressão de microfraturas (“crack propagation”) a uma eventual macrofratura. Uma acumulação de microdanos é referida como reação de stress do osso. A partir do momento em que há um linha clara de fratura visibilizada na imagem, pode ser considerado uma fratura por stress.

 Classificação 

A classificação da fratura por stress em alto e baixo risco tem sido proposta por diversos autores. Essa classificação será importante para determinar o tratamento da lesão. As áreas de compressão do osso respondem bem a modificação das atividades, sendo consideradas de baixo risco. Estas incluem a diáfise do fêmur, tíbia medial, costelas, diáfise ulna, primeiro ao quarto metatarso. Já as de alto risco, com o atraso no diagnóstico e tratamento menos agressivos, tendem a evoluir para a fratura completa. Os locais de alto risco incluem o colo do fêmur, patela, diáfise anterior da tíbia, maléolo medial, talus e base do 5º metatarso. Além do local da fratura, é possível classificá-la de acordo com o grau. Estudos na literatura classificam de 1-4, sendo grau 4 fratura por stress completa e os graus 1 a 3 níveis crescentes de alterações no periósteo e edema.  

Aguarde a parte II sobre fatores de risco, diagnóstico e tratamento da fratura por stress!

Ft. Gabriela Borin

 

Fotos: http://www.carygrovefootandankle.com/     

http://www.wellsphere.com/life-as-a-doc-article/stopping-shin-splints/1051253

 

 

Sobre o autor Gabriela Borin

Gabriela Borin escreveu 18 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pela USP, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Mestranda em Ciências pela FM/USP. Estuda Fisioterapia Esportiva e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

3 Replies to “Fratura por stress – Parte I”

  1. Parabéns pela matéria!!! Acredito que a Parte II será muito esclarecedora, principalmente para os leitores atletas reconhecerem os sintomas e terem consciência do tratamento desta patologia.

Queremos seu comentário...