Fratura diafisária da Tíbia – Anderson Silva (Parte 1)

fratura diafisária da tíbiaA fratura diafisária da tíbia é uma lesão séria e se apresenta mais comumente nos esportes em que há contato ou nos esportes radicais. Essa lesão ganhou grande destaque na mídia esportiva desde o UFC168, noite em que a  revanche de Anderson Silva sobre o americano Chris Weidman foi tragicamente encerrada devido a fratura sofrida pelo brasileiro (reveja o vídeo da luta aqui). Já se passaram dois meses desde o evento e muitas pessoas ficaram impressionadas com a recuperação do brasileiro, veiculada principalmente na internet com vídeos, fotos e até um depoimento do presidente Dana White. Anderson Silva costumava ser uma pessoa reservada, mas a sua reabilitação está virando um reality show. Há sim um motivo para se surpreender com tal evolução, como a maioria das pessoas e jornalistas estão tratam do assunto, mas se entendermos o papel da ortopedia, fisioterapia e preparação física veremos que não há surpresa, mas sinais de um trabalho que está sendo bem feito.

A tíbia, junto da fíbula, forma o esqueleto da perna e faz a ligação entre a articulação do joelho com o tornozelo. Um fato interessante é que nos homens, sua direção é vertical, já nas mulheres tem uma direção ligeiramente oblíqua para a lateral, compensado a maior obliquidade do fêmur devido a dimensão da pelve. A gravidade da fratura diafisária da tíbia depende da magnitude da força do trauma e do envolvimento ou não de outras estruturas (tecidos moles adjacentes e também a fíbula). Normalmente, a fratura se dá por uma força aplicada na face lateral ou medial. É importante observar que no caso de Anderson Silva a zona do trauma foi a diáfise do osso porém o contato deu-se na face anterior. Para ocorrer uma fratura com essa forma de contato temos algumas hipóteses ou mais de uma em conjunto:

  1. Spider é especialista em Muay Thai, arte marcial onde golpes violentos com a canela são comuns. Também Chris Weidman sabia disso e chegou a declarar após o ocorrido que treinou a defesa para tais golpes. O fato é que a potência do seu golpe pode ter sido tamanha que ao sofrer a reação do contato tal força superou a capacidade da tíbia em deformar-se e absorver o impacto, levando a fratura;
  2. O lutador poderia estar com algum grau desequilíbrio metabólico, causado talvez por overtraining ou decorrente do período de desidratação brusca ao qual os atletas se submetem para atingir o peso pré-luta;
  3. Presença de uma fratura por stress não diagnosticada e assintomática na tíbia.

fratura diafisária da tíbiaA fratura diafisária da tíbia pode se apresentar de diversas formas: exposta, fechada, espiral, oblíqua, transversa, cominutiva, sendo elas estáveis ou não. Em muitos casos há envolvimento e fratura também da fíbula. Não temos dados precisos, mas é possível presumir pelo que encontramos na mídia que a fratura de Anderson Silva tenha sido diafisária transversa, terço distal, com acometimento fibular e sem lesões associadas a tecidos moles. O fato da fratura não ter sido exposta e não ter lesionado tecidos adjacentes melhor muito o prognóstico, pois minimiza o risco de infecções, isquemias teciduais e lesões nervosas (estas poderiam levar a comprometimentos sensoriais e motores).

fratura diafisária da tíbiaO fato da intervenção médica ter se dado prontamente ao ocorrido foi um fator determinante para possibilitar a recuperação acelerada do atleta. Ao ser imobilizado, ainda dentro do octógono, é possível que evitou-se desvios dos focos de fratura e outras lesões de teciduais. Anderson foi levado ao hospital da Universidade de Las Vegas, fez diversos exames para diagnosticar a gravidade da lesão e submetido a intervenção cirúrgica em seguida, pelo Dr. Steven Sanders, ortopedista do UFC. A opção médica foi colocar uma haste intramedular na tíbia fixada por dois parafusos distais e um proximal. A fratura da fíbula não foi abordada, pois este osso é capaz de se consolidar com a tíbia sendo fixada e também porque uma intervenção nele poderia levar a um contato ou fusão dos focos de fratura, prejudicando o reparo e sendo necessário um novo intervento. Dr. Sanders explica neste vídeo os procedimento feitos e suas opções cirúrgicas, vale a pena conferir (em inglês).

Frente a aos fatos podemos tirar algumas conclusões e começar a entender porque não devemos nos surpreender com a recuperação acelerada de Anderson Silva. Sua lesão foi séria, contudo foi prontamente atendido e teve imediatamente todos os recursos hospitalares e de diagnóstico necessários para auxiliar o médico em sua conduta. Foi operado prontamente e, provavelmente, iniciou o tratamento de fisioterapia pós-operatória no dia seguinte (se não logo após a cirurgia). Além de tudo isso, não temos notícias de nenhuma intercorrência.

Na continuação desta matéria iremos tratar da reabilitação da fratura diafisária dá tíbia, como a Spalla Fisioterapia aborda este tipo de caso. (Parte 2: está sendo e escrita e tem previsão de sair em 5 semanas. Até lá, comente como você aborda este caso, fisioterapeuta, ou como você lidou com isso, paciente).

Ft. Fernando Cassiolato

Imagens: Jayne Kamim-Oncea US TODAY Sports, ZHE Sports

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

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