Fratura diafisária da tíbia – Anderson Silva (Parte 2)

fratura diafisária da tíbiaApós compreender o porquê de Anderson Silva apresentar uma evolução acelerada de sua fratura diafisária da tíbia, vamos elencar alguns passos a serem observados na reabilitação de tal lesão. É importante lembrar que cada paciente é único e responde de uma forma a terapêutica instituída. Logo, as informações aqui presentes não se compõem em um protocolo de tratamento, mas sim de ideias e guias para um processo de reabilitação da fratura diafisária da tíbia, tratada com colocação de haste intramedular. Não são mencionados recursos terapêuticos específicos a serem usados, nem técnicas específicas, pois isto pode variar muito segundo a disponibilidade de materiais e as técnicas dominadas pelo fisioterapeuta.

A reabilitação destes casos de fratura diafisária da tíbia podem ser divididas em 4 fases:

FASE 1 (Pós operatório imediato)

Nessa fase procura-se minimizar os efeitos adversos decorrentes do processo cirúrgico e da imobilidade. É certo que após a cirurgia ocorra algum grau de edema no membro em questão e atrofia muscular, principalmente do quadríceps e tríceps sural. Utilizar meia elástica ou enfaixamento compressivo ajudam a minimizar o edema pós-cirúrgico e auxiliar na drenagem do membro; pode ser feito ainda fratura diafisária da tíbiavárias manobras de esvaziamento ganglionar durante o dia, aplicação de bandagem elástica (kinesio tape), PRICE (compressa de gelo com compressão e elevação do membro).

Se houver necessidade do uso de um dispositivo de imobilização, que este seja feito, se possível, pelo Robofoot, pois permite a higienização do membro e o livre acesso a área a ser tratada pelo fisioterapeuta. É de extrema importância respeitar a orientação do médico responsável sobre a descarga de peso no membro operado, usando as muletas orientadas. As evoluções de carga (de ausente para carga toque) podem ser feitas com base no relato do paciente.

Com a restrição de mobilidade, deve-se manter as articulações do tornozelo, joelho e quadril com sua amplitude de movimento completa e livre.

FASE 2 (2 a 12 semanas)

A carga passa a ser progressiva, devendo ser embasada pela evidência radiológica e com liberação médica para tal, podendo prosseguir para a retirada de uma das muletas (aquela mantida deve ser usada no lado não operado).

Iniciar exercícios, em cadeia cinética aberta, com carga progressiva para todos os grupos musculares do membro inferior, respeitando as eventuais queixas de dores e oferecer assistência aos movimentos, afim de garantir boa evolução com redução do risco de intercorrências. Os alongamentos também são iniciados, com ênfase para o tríceps sural.

Se não houver sinais de edema, inflamação, dores fortes e o paciente estiver com as amplitude de movimento articulares livres, pode-se iniciar o uso da bicicleta ergométrica, inicialmente sem carga ou mínima possível.

FASE 3 (após 12 semanas)

tibia3A carga passa a ser total, com independência na marcha. Uma atenção especial é necessária em relação a marcha correta do paciente: sem claudicação e sem movimentos de compensação. Deve-se manter a progressão nos exercícios de fortalecimento para todos os grupos musculares do membro inferior. A grande diferença da fase anterior é que, normalmente, nessa fase o calo ósseo já está formado e se não há dores fortes, o paciente pode iniciar os exercícios em cadeia cinética fechada. O treino em bicicleta ergométrica pode ser intensificado.

Nessa fase também deve ser iniciado os exercícios de propriocepção, sempre com evolução progressiva (de superfícies estáveis para instáveis, sem movimento articular para com movimento articular). Assim que o paciente tolerar, vale a pena inserir movimentos específicos e básicos de seu esporte de origem para o treino proprioceptivo. Muitos atletas que estão nessa fase, após a fratura da diáfise da tíbia, se demonstram impacientes com a reabilitação e inserir alguns movimentos específicos lhes faz muito bem.

FASE 4 (Treino funcional e Retorno ao esporte)

fratura diafisária da tíbiaOs pacientes comuns (não atletas) finalizam o processo de reabilitação na fase anterior, pois é de se esperar que retornem as suas atividades diárias sem restrições. No caso dos atletas, a reabilitação da fratura diafisária da tíbia recebe uma atenção diferenciada, pois ele precisa estar apto e seguro a fazer todos os movimentos necessário para voltar ao seu esporte. Neste momento, espera-se que não haja nenhum impedimento físico (dor, edema, restrição de ADM, marchar claudicante, fraqueza muscular) ou que eles sejam mínimos, podendo o trabalho do fisioterapeuta ser focado no treino do gesto esportivo e simular condições que sejam corriqueiras no esporte. Este trabalho é de extrema importância para o atleta voltar a sua prática esportiva seguro de si. Vale lembrar que neste momento ele está liberado para o trabalho com a preparação física.

Esta semana, mais uma vez, a imprensa noticiou e todos se espantaram ao ver Anderson Silva chutando uma bola com o membro operado. Após a leitura dos dois artigos sobre o tema  e levando em conta toda a estrutura a disposição do atleta, não há porque se surpreender com tal recuperação até o momento, mas sim constatar: trabalho bem feito!

Ft. Fernando Cassiolato

Imagens: Hungria e Mercadante (Rev. Bras. Ortop. 2008), Reprodução/Instagram AS, Reprodução/Twitter AS

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

6 Replies to “Fratura diafisária da tíbia – Anderson Silva (Parte 2)”

  1. Ótima matéria meu caro, acabei de sofrer uma lesão desse tipo é essa matéria vai me ajudar muito a me recuperar

  2. Boa tarde, parabéns pelo trabalho, minha duvida é o momento de descarga de peso desde parcial a total, pois tive a mesma fratura e sou fisioterapeuta, sei que cada caso é um caso e deve se observar a consolidação dos ossos em questão. Gostaria que me orientasse a respeito desta questão, a descarga total pode ser realizada com dois meses caso já exista uma pequena formação de calo osseo?

    1. Obrigado Miguel! Realmente a decisão de colocar a carga não é fácil e uma forma de você se sentir mais seguro em relação a isso é manter uma estreita relação com o médico que acompanha o caso. As suas informações de como o paciente está transcorrendo na reabilitação e as evidência radiológicas vão embasar a decisão de liberar a carga ou não. As fraturas nesses casos estão estabilizadas desde o PO imediato (exceto para rotação) e em teoria poderia ser colocado carga imediata, mas não fazemos por conta da dor, edema e inibição muscular. Em nossa experiência, conduzindo os casos com carga toque tão logo tolerada e progressiva ao longo de 8 a 12 semanas. A carga é importante para a osteogênese, cabe ao fisioterapeuta e o paciente compreenderem os momentos certos de incrementá-la para favorecer a consolidação. Assim, se tudo correr bem, espera-se que com 12 semanas já tenha se formado o calo e o paciente esteja com carga total.

  3. Excelente matéria, descrevendo muito bem que não há milagre e nem o porque de se espantar, mas sim, muito planejamento individualizado e trabalho duro de fisioterapia.

    Parabéns Spalla.

  4. Muito interessante, o tipo de trabalho que teria salvo muitos atletas ao longo da história que bom que estamos evoluindo cada vez mais! Parabéns pela matéria.

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