Fratura de Costela – Fred jogou no sacrifício?

No dia 22 de maio (2013), durante o primeiro jogo das quartas de final da Copa Libertadores da América entre Fluminense e Olimpia, o atacante Fred levou uma joelhada no último lance do jogo. No dia seguinte o atacante queixou-se de dores no clube e realizou exames que apontaram uma fratura de costela, porém incompleta, na parte posterior de um dos arcos. “Eu sentia a dificuldade para andar, respirar. Dois depois, optei por tentar dar uma volta no campo. Dei a volta com muita dor. Pedi para fazer o trabalho de dois toques e consegui. Com dor, consegui levar. Terminei bem. A dor no sábado diminuiu e no restante dos dias também.” Os médico do clube optaram por manter o jogador em atividade, considerando a importância do atleta para a segunda partida e decisiva, no Paraguai, na semana seguinte. Passou a ser medicado e apenas reduziu a intensidade nos treinamentos. “Passei por cima disso aí e joguei normal contra o Olimpia. Só que no primeiro lance da partida tomei uma porrada nas costas. Fiquei 30 segundos com dor. Pedi para me dar um comprimido escondido, mas esqueci que tinham 50 câmeras” contou o atacante em entrevista após a partida em que o Fluminense foi eliminado. Confira neste vídeo o momento em que o atacante pega analgésicos dentro de campo. Após estes acontecimentos, a pergunta que ficava no ar era se o jogador seria cortado do grupo que iria enfrentar a Inglaterra e França, nos amistosos da Seleção Brasileira.

Quando se apresentou a Seleção Brasileira, Fred foi logo submetido a novos exames que constataram a mesma fratura de costela incompleta. O médico José Luiz Runco, garantiu que a lesão não impediria o jogador de atuar e que a cicatrização completa só se daria em mais duas ou três semanas. “Vamos avaliar a cada dia a situação e a decisão da escalação fica com o técnico, que tem a palavra final”, disse. Estes acontecimentos nos faz discutir alguns pontos interessantes.

fratura de costelaA decisão de manter um atleta lesionado em atividade é mais complicada do que apenas a questão física em si. Atualmente, as esferas que abrangem o esporte de alto rendimento são muitas. Sabe-se que a “palavra final” é a do técnico, porém o que deve ser avaliado em casos como este discutido aqui é, em primeiro lugar, a saúde do atleta, pois ele não pode correr o risco de sofrer lesões mais sérias que possam comprometer a temporada ou até sua carreira à custa de uma partida. Além disso, questões econômicas, sociais e políticas que envolvem patrocinadores e torcedores que desejam ver o atleta em atuação, o retorno financeiro que isso pode gerar, pesam muito no modelo de business esportivo que vivemos hoje. Devido a isso, a decisão de manter um jogador importante numa partida é muito mais complexa do que se pode parecer. Porém, nos atendo apenas a questão de nossa área de atuação, a decisão é mais difícil de ser tomada ainda quando tal partida é decisiva e o jogador em questão é uma peça chave no esquema tático ou um líder no grupo. É preciso muita conversa e sintonia entre Departamento Médico e Departamento Técnico, onde ambas as partes expõem seus pareceres e juntos devem assumir qualquer risco de agravo na saúde do atleta. Neste caso, vimos que apesar das medicações e permanência de Fred em campo, seu rendimento foi abaixo do esperado, mas felizmente nada de mais grave aconteceu a saúde do atleta. Do ponto de vista médico, correu tudo bem, já do técnico, nem tanto.

A fratura de costela sofrida pelo por Fred foi incompleta e localizada no arco posterior, local que felizmente é um dos tipos menos complicados de resolução. A fratura de costela é a mais frequente das lesões de parede torácica. Pode acontecer isolada ou em associação com outras lesões, como pneumotórax ou hemotórax. A fratura de costela da primeira a terceira sinalizam trauma de grande intensidade, uma vez que estas estão protegidas pela escápula, clavícula e membro superior. As costelas intermediárias (quarta a nona) sofrem a maioria dos traumas contusos. A força aplicada diretamente sobre o arco anterior das costelas tende a fratura-las e direciona-las para dentro do tórax, aumentando o risco de lesões como o pneumotórax. Porém, quando este tipo de fratura de costela ocorre no arco posterior, dificilmente há complicações. A existência de fraturas nas últimas costelas (décima a décima segunda) deve aumentar a suspeita de trauma abdominal associado. O quadro clínico pode apresentar-se com dor e crepitação à palpação do ponto fraturado. A radiografia de tórax demonstra as fraturas. A conduta nas fraturas de arcos costais não complicadas consiste no controle eficaz da dor através de medicação e fisioterapia para prevenir complicações. Dentre os recursos disponível que podem ser utilizados destacamos:

  • Crioterapia, laser, acupuntura, kinesio tape, podem ser usados para controle da dor e induzir relaxamento muscular;
  • Laser e Ultra-som podem ser usados ainda para aumentar a atividade osteoblástica no local da fratura, acelerando a consolidação;
  • Manobras respiratórias podem ser empregadas para evitar a rigidez da caixa torácica.

O ultimo ponto que gostaríamos de coloca em discussão é o fato de ser praticamente impossível um atleta não experimentar ao menos uma sensação de dor ao longo de sua vida competitiva. Dor e alto desempenho caminham lado lado no mundo esportivo. No caso do atacante Fred as dores foram decorrentes de um trauma direto, comum nos esportes de contato. fratura de costelaPorém, há um mecanismo fisiológico, particular de atletas ou praticantes de atividade física regular, em que o corpo humano libera substâncias químicas na corrente sanguínea após a prática de exercícios, os chamados opióides endógenos, que dentre outros efeitos atuam elevando o limiar de disparo das fibras nervosas que conduzem o estímulo de dor do corpo. Isto faz com que se reduza a percepção de dor no sistema nervoso central. Na fisiologia isto é  chamado de “Lei do tudo ou nada”, ou seja, se um estímulo não tem magnitude suficiente para gerar um potencial de ação nervoso ele não é conduzido, logo a informação não atinge o córtex cerebral e não é “sentida” pelo indivíduo. Logo, espera-se que a tolerância a dor em um atleta de alto rendimento seja muito maior que um indivíduo comum, possibilitando-o a suportar o incômodo e continuar a sua prática esportiva.

Antes do jogo contra a Inglaterra, Fred garantiu que não iria mudar seu estilo de jogo, caso ele fosse escalado, devido a fratura de costela. “Na hora da adrenalina, do bicho pegando dentro de campo, você esquece do seu problema e vai jogar normalmente. Tanto que no jogo do Fluminense já fui escorar uma bola e tomei porrada no local. Senti uma dor forte por uns 30 segundos, mas depois fui de novo. Vou continuar procurando este contato e fazendo os gols da mesma forma.” Toda a garra do atacante lhe rendeu o primeiro gol do novo Maracanã, ajudou a Seleção a não ser derrotada e ainda manteve sua chance viva de conquistar uma vaga definitiva na Seleção Brasileira para a Copa das Confederações 2013 e Copa do Mundo 2014.

Ft. Fernando Cassiolato
Ft. Thaís Bortolini

Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

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