Dr Mirkin x Spalla

Dr MirkinNo dia 23 de abril de 2014, a Spalla republicou uma matéria do Dr Gabe Mirkin que levantava pontos e questionava seu protocolo RICE, proposto e descrito pela primeira vez em 1978. Essa matéria surpreendeu a muitos e vem sendo responsável por discussões sobre o tempo de aplicação do gelo, suas ações no reparo tecidual, processo inflamatório, etc.

A Spalla também tem suas opiniões em relação a matéria escrita pelo Dr Mirkin e irá expô-las aqui. Esperamos que ao lerem essa matéria, todos possam compartilhar suas experiências e opiniões em relação ao uso do gelo e sua aplicação.

No inicio de sua matéria, Dr Mirkin tenta explicar por que o gelo retarda a recuperação. Ele cita um estudo onde o uso do gelo levou a um retardo do edema, mas não acelerou a cicatrização da lesão muscular. E outro estudo que não mostrou evidências de que o gelo e a compressão juntos possam acelerar a cicatrização. Nós da Spalla concordamos que o gelo possa retardar o edema, mas não drená-lo uma vez instalado. Achamos que a função do gelo na fase aguda de uma lesão é a de controlar o processo inflamatório e não a de acelerar o processo de cicatrização. Sabemos que o processo inflamatório ocorre de forma demasiada, podendo gerar um grande derrame de liquido no tecido lesionado. A presença desse liquido pode gerar dor, perda de força e função e com isso retardar o processo de cicatrização, por isso, o gelo é tão importante nessa fase.

Além disso esse estudo foi realizado apenas com lesões musculares, o que não prova que o gelo seja responsável por retardar os processos de cicatrização de outros tipos de lesão, como lesões capsulares, ligamentares, ósseas, etc. Seria importante realizar outros estudos com outros tipos de lesão e verificar se o gelo atua da mesma forma em todos os casos. Saber a metodologia dos estudos citados por Mirkin, como por exemplo se a lesão era aguda ou crônica, se haviam lesões associadas, se era de origem recidivante, etc seria importante para uma melhor discussão dos resultados apresentados.

Em seguida, Mirkin defende o fato de que a reparação tecidual necessita da presença de um processo inflamatório para ocorrer. Ele explica que ao sofrer uma lesão, o organismo responde enviando células  inflamatórias para o tecido danificado para promover a reparação do mesmo. As células inflamatórias chamadas macrófagos liberam um hormônio chamado Fator de Crescimento (IGF-1) nos tecidos danificados. Ao aplicar o gelo, Mirkin afirma que estaríamos retardando a reparação ao evitar que o corpo  libere esse fator de crescimento. Para a Spalla, o gelo não anula completamente essa resposta inflamatória, mas interfere na quantidade da mesma. Ao aplicarmos o gelo estaríamos reduzindo a resposta inflamatória, que em excesso pode retardar o tempo de cicatrização de um tecido, e não impedindo essa resposta inflamatória de acontecer. O processo inflamatório é importante para a reparação tecidual, mas em excesso pode causar danos, por isso é importante controlá-lo para evitar os efeitos deletérios que ele possa causar. Existem muitas evidências científicas de que a aplicação do gelo na fase inicial trás efeitos benéficos ao paciente, mas será que os 20 minutos descritos inicialmente por Mirkin seria o tempo ideal para essa aplicação?

Para  o Dr Mirkin, a aplicação do gelo prejudica a chegada de células inflamatórias  no tecido lesionado ao provocar uma constrição dos vasos sanguíneos próximos a lesão. Ele acredita ainda que essa vasoconstrição permaneça por horas após a aplicação do gelo podendo levar a morte tecidual. A equipe Spalla discorda, pois  não acreditamos que o gelo, muito menos uma aplicação de 20 minutos, tenha a capacidade de promover uma vasoconstrição a ponto de causar uma interrupção na circulação e ocasionar a morte tecidual, mas seria interessante pesquisar mais sobre esse tempo de duração da vasoconstrição pós aplicação do gelo para uma melhor argumentação.

Em contra partida, concordamos com Dr Mirkin quando ele afirma que o gelo reduz a força, velocidade, resistência e coordenação. Estudos mostraram que logo após aplicação do gelo ( aplicação maior que 20 minutos) houve uma diminuição na força, velocidade, potência e agilidade dos jogadores. Os autores recomendam que se o resfriamento é feito para limitar edema, o gelo deve ser aplicado por menos de 5 minutos, seguido de um aquecimento progressivo antes de voltar à pratica esportiva. O que devemos fazer é diferenciar o objetivo da aplicação do gelo para definirmos qual o melhor tempo dessa aplicação. Todos da Spalla acreditam que a aplicação do gelo antes da prática esportiva, se muito necessária, deve ser feita por um período muito curto (menos de 5 minutos) de tempo seguida de um bom aquecimento. Mas geralmente evitamos aplicar o gelo antes ou durante a prática esportiva.

        Ao final de sua matéria, Dr Mirkin expõe suas recomendações. Ele recomenda a aplicação de uma bandagem de compressão se a lesão for restrita aos músculos e tecidos moles, pois já foi demonstrado que a aplicação de gelo em um local lesionado auxilia no alívio de dor, porém sabemos que a compressão não é indicada em todas as lesões de tecidos moles. É preciso avaliar se há a necessidade de compressão através de uma avaliação minuciosa da lesão.

Para ele deve ser feita uma aplicação de gelo por 10 minutos logo após a lesão, retirar por 20 minutos e repetir a aplicação por mais 10 minutos (de uma a duas vezes). Mas de onde ele tirou esse protocolo? Com base em quais evidências? Acreditamos que o gelo não deva ser usado indiscriminadamente; que nem sempre seu uso é benéfico, mas com certeza precisamos de mais estudos que mostrem qual o melhor tempo de aplicação para se promover uma vasoconstrição capaz de causar uma morte tecidual, para se promover um controle do processo inflamatório, para controlar e retardar um edema e para promover um alívio da dor. Quem sabe assim possamos acabar com essa receita de bolo de aplicação de gelo por 20 minutos para tudo!

Ft. Ana Carolina Villa-Lobos

Sobre o autor Ana Carolina Villa-Lobos

Ana Carolina Villa-Lobos escreveu 12 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduada pelo UniCeub em Brasília, pós graduada em Fisioterapia Esportiva pelo CETE/EPM/UNIFESP e Supervisora do ambulatório de coluna do CETE. Trabalha com Fisioterapia Esportiva, Terapia Manual e Controle Postural. Atua na cidade de São Paulo.

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