Calendário x Futebol = ?

bom senso FCPor mais simples que pareça, a equação acima é um tanto quanto complicada de se resolver, pois as variáveis ocultas que influenciam o resultado final são tantas que ninguém consegue listar (CBF, Federações, televisão, rádio, jornais, sindicatos, patrocinadores, empresários, profissionais da saúde…). Há alguns meses estamos vendo um movimento de atletas organizar e reivindicar mudanças no calendário do futebol brasileiro. O movimento, chamado de Bom Senso Futebol Clube, que já conta com o apoio de mais de 300 atletas das Séries A e B do Campeonato Brasileiro definiu propostas sobre pontos que têm repercutido no rendimento dos atletas e na qualidade do futebol:

1) Calendário do futebol nacional;
2) Férias dos atletas;
3) Período adequado de pré-temporada;
4) Fair Play financeiro;
5) Participação nos conselhos técnicos das entidades que regem o futebol.

O ponto onde toca a nós da área da saúde e que lidamos diretamente com a integridade física e desempenho dos atletas, é justamente a reinvindicação central dos atletas: excesso de jogos e falta de tempo hábil para se preparar para tal condição. Uma semana típica de um clube que joga duas vezes na semana seria a seguinte: folga na segunda, treino na terça,  concentração e jogo na quarta, folga na quinta, treino na sexta e sábado, concentração e jogo no domingo, sendo que no Brasil é muito comum os treinadores adotarem ainda o estilo de treino em dois períodos diários. Com o Campeonato Brasileiro terminando em Dezembro e os estaduais iniciando em Janeiro, a maioria dos clubes têm apenas 3 semanas de pré-temporada, onde o ideal seriam 6 semanas. No Brasil não há estudos significativos e nenhuma instituição, até o momento, monitora, estuda ou publica estatísticas e análises de lesões por tempo de exposição dos nosso jogadores aos períodos de treinamentos e jogos. Ainda estamos engatinhando em relação a tal conceito, o que ajudaria muito a implementação de programas de treinamento preventivo, muito subestimado ainda por dirigente, comissões técnicas e pelos próprios jogadores.

frontiniO atacante Frontini, que teve passagem no Santos e hoje defendo o Vila Nova (GO) comenta: “Sobre o Bom Senso FC, seria interessante ter nessas reuniões representantes de todas as divisões, principalmente C e D, pois é onde a maioria dos jogadores está hoje. Precisa ser feita uma reunião onde possam participar todos estes jogadores e expressarem suas opiniões para chegarem a um verdadeiro BOM SENSO para todos e não apenas pra quem jogar a Série A. Sei da importância de ser feita isso pra que seja bom pra todos inclusive para futebol brasileiro que cada vez mais esta com seus estádios vazios e os clubes falidos, mas acredito que o fim dos campeonatos estaduais não é o caminho, pois a maioria dos jogadores brasileiros trabalha mesmo nos estaduais, onde pode se fazer um bom contrato. ”

Dr Bruno Magnani PerezO médico das categorias de base do São Paulo FC, Dr. Bruno Perez, comenta: “O numero de lesões vem aumentando exponencialmente e a causa, definitivamente, é multifatorial e, portanto, muito complexa. O excesso de jogos, principalmente dos grandes clubes, vem sendo discutido, porém este não pode ser acusado como o único causador do aumento de lesões. Os atletas estão treinando cada vez mais, muito perto do seu limite de exaustão, ficando mais predispostos as lesões e isto, associado a grande quantidade de jogos, têm comprovadamente influenciado no acontecimento das lesões.

O ser humano às vezes é tratado como maquina, em especial no futebol brasileiro, o calendário sobrecarregado dos jogos obriga o atleta a disputar varias partidas por ano, o que gera também excesso de treinamento e diminuição da recuperação. Nós sempre relacionamos as lesões pelo número de horas jogo e treino. Quanto mais horas jogo ele tem, maior o risco de lesão. Porém alguns casos são fatalidades.

Além da pressão da mídia para transmitir jogos aliada ao interesse comercial dos patrocinadores, outro fator muito importante são os hábitos dos atletas. Com o aumento do desgaste físico o atleta deveria, logo após um jogo ou um treino, se alimentar de forma adequada, repousar o corpo e ter uma boa quantidade e qualidade do sono, porém cada vez mais esse momento vem sendo trocado por festas, alimentação inadequada, diminuição das horas de sono e, principalmente, ingestão excessiva de álcool. Por isso não podemos tratar o calendário como o único vilão e ter relação direta para todo esse aumento de lesões no futebol brasileiro.”

bsfc5Sob o ponto de vista da fisioterapia esportiva, estamos “acostumado a correr atrás do tempo”. Nenhum atleta é pago para ficar frequentando o departamento médico do clube e a pressão sobre a volta do jogador já começa na mesma hora em que a lesão acontece. O excesso de partidas é, sem dúvida, um fator de risco importante dentro do estudo preventivo. “As lesões no futebol estão aumentando de forma constante, dois em cada 3 jogadores se lesionam sozinhos. Não se pode jogar 3 vezes por semana , pois os jogadores são expostos a riscos muito elevados”. Essas são palavras do Dr. Piero Volpi , médico da Associação Italiana de Jogadores de Futebol (AIC) , que em abril de 2008 já alertava a todos sobre a grande discussão que esta acontecendo no nosso futebol atualmente. Essa correria frenética pelo retorno e exposição do jogador a mídia tem prejudicado muitos processos de reabilitação. Eletroanalgesia e gelo são importantes ferramentas, mas não curam tudo, e isto infelizmente é o que a maioria dos clubes de futebol no Brasil oferecem como suporte de tratamento a seus atletas. Na medida do possível, é preciso avaliações constantes, conhecer as particularidades dos atletas dos elencos, ter paciência e clareza para estimar um prognóstico e instalar a conduta de reabilitação. Investir em profissionais competentes e organizar uma boa estrutura de trabalho para eles pode ser a melhor forma de garantir que os milhões investidos nos clubes permaneça sempre em exposição, seus atletas jogando. Para se ter uma ideia real concreta, em matéria publicada pela Globo antes da 28ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série A, 77 jogadores no total desfalcavam seus times por conta de lesões, nenhum dos 20 times estava isento de ao menos uma baixa no elenco.

Apesar do movimento Bom Senso FC não representar todos os atletas do futebol brasileiro, é um ponto de partida importante para ao menos suscitar o debate de alguns temas e, quem sabe, iniciar algumas mudanças no futebol brasileiro. A área médica pode se beneficiar muito disto, cuidando melhor dos seus atletas e tendo mais tempo para avaliações e reavaliações periódicas de seus jogadores nas pré-temporadas e intervalos de jogos.

Ft. Fernando Cassiolato

Colaboração: Carlos Frontini e Dr. Bruno Perez
Foto: BSFC Facebook, Reprodução/TV Anhanguera

Sobre o autor Fernando Cassiolato

Fernando Cassiolato escreveu 31 matérias nesse site.

Fisioterapeuta graduado pela USP, pós-graduado em Fisioterapia Esportiva pela CETE-UNIFESP e Acupuntura pelo IPES. Estuda Fisioterapia Esportiva Preventiva e atua na cidade de São José do Rio Preto.

Queremos seu comentário...